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O Caboclo João Mineiro
Jorge Gerônimo Hipólito
Nos idos de 1957, num domingo à tarde, ouvi o trotear dum cavalo bem em frente a minha casa que ficava numa fazenda há uns quarenta quilômetros de São José do Rio Preto, onde éramos meeiros. Da cozinha ouvi meu pai dizendo: boa tarde, João Mineiro, apeia e entra pra tomar um café! O João Mineiro desceu, entrou e se sentou bem próximo da porta da sala, ele de um lado, meu pai do outro. Isso para mim caracterizava um problema, pois na época, filho não passava entre adultos, uma vez que atrapalhava a conversa e era falta de educação. Pois bem, num dado momento passei pela sala em direção ao meu quarto com a intenção de pegar um brinquedo. Seguindo os costumes da época me encontrava pelado, ou seja, sem roupas. Ao chegar no quarto ouvi o tal do João Mineiro dizer ao meu pai. “Eu acho que vou aproveitar o meu canivetão Bianchi para capar (castrar) menino que anda pelado”. E caíram na risada. Aquilo me deixou preocupado, pois o João Mineiro também era capador de porcos da região. Eu já havia presenciado e percebido que os porquinhos sofriam por demais. Fiquei com muito medo. Mas, a brincadeira continuava, pois toda as vezes que ele me via passando pela sala repetia aquela frase torturante. Eu já estava em desespero. De repente, inadvertidamente, fui para a dispensa, onde meu pai deixava pendurado o rebengue. Rebengue, na verdade, era um instrumento que os homens utilizavam para bater nos animais, quando esses puxavam carroças, ou às vezes para trotear mais rápido. Não pensei duas vezes, me dirigi na direção da porta escondendo o rebengue, assim, quando cheguei bem pertinho veio a minha mente: esse sujeito não vai me capar de jeito nenhum e desferi uma rebengada no João Mineiro. Agora, imaginem vocês, naquela época educavam os filhos com muito rigor, eu jamais poderia ter feito aquilo. O meu pai ficou pálido de tanta vergonha, me segurou pelo braço e já ostentando o rebengue que de mim havia tomado. Nesse momento, o João Mineiro disse ao meu pai: por favor, não bata no menino, pois, a culpa foi nossa. Eu não deveria ter insistido na brincadeira. O meu pai guardou o rebengue, e eu, bem de mansinho fui para a cozinha, onde minha mãe se encontrava também desesperada e com o café na bandeja, pronto para ser servido. Aconselhou para que eu permanecesse ali e foi servir o café. Logo em seguida ouvi o João Mineiro dizendo ao meu pai: até outro dia, não se preocupe, não foi nada, a culpa foi minha! O cavalo bateu os cascos, troteou e foi embora com o João Mineiro. Eu tremia de medo lá na cozinha, porém sem me arrepender do que havia feito, ou seja, você acha que eu ia permitir a alguém cortar minhas preciosidades. Detalhe, nunca mais vi o João Mineiro.