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O HIPOCONDRIACO

( Miriam Midnight ITA – L’IPOCONDRIACO – trad. Eliude Santana )

 

 

 

…E o pesadelo se transforma em realidade. É’ o título de um filme de série B dos anos 70. Eu o vi, cerca dois anos atras. Me lembro que era uma noite de verão, igual a esta, uma daquelas noites quentes em que a única coisa de que temos vontade de fazer é sair pra beber com os amigos e se divertir um pouco. Voltei pra casa às três da noite com uma sede incrível e nem um pouco de sono. Me dirigi à cozinha, peguei uma cerveja fresca da geladeira e liguei a televisão. Passava um filme que parecia estar começando naquele momento. Entendi logo que se tratava de filme de horror, um daqueles dos anos setenta, filmados com pouca grana, em que o audio è péssimo e o diálogo pior ainda. No entanto adorava.

Tinha uma vasta coleção de VHS. Todos os filmes de horror de série B, a maioria quase desconhecida, cavados nas lojas mais derrubadas da Europa. A esse ponto jà tinha uma coleção de grande respeito: cerca 400 títulos. Sair à procura de novos, era jà um hobby e um dos maiores prazeres da minha miserável vida de estudante. Se não me engano, foi através dessa coleção que conheci Carl. Ele também viu o filme naquela noite, mas não se impressionou muito.

Acho que a maior parte desses filmes é grotesca e, geralmente, cômico involuntariamente. Algumas vezes aconteceu de ver alguns que, por algum motivo, me fizeram sentir angústia. Nem todos, quero dizer. O bom dos filmes de horror è que são muito relativos. Ás vezes è terrificante pra uns e inócuos pra outros ou até mesmo ridículos.

Por exemplo, eu tenho um sacro terror às mantilhas religiosas. Não as suporto. Lembro como se fosse ontem, uma coisa que aconteceu quando eu tinha uns cinco anos.

Estava passando as férias de verão na casa de campo de meus avós.  Jogava bola com meu irmão e meus amigos. André, conhecendo o meu fraco, pra se gabar com os outros, pegou uma mantilha que encontrou dentro do mato e sacudiu na minha cara. Dizer que tive uma crise histérica, è pouco. Gaguejando, implorei a ele de parar, minhas pernas tremiam sem que pudesse controlà-las e comecei a temer que dalì a pouco iria fazer xixi nas calças.

Não obstante a humilhação e as risadas das outras crianças, não conseguia me mover nem um centímetro. Era como se uma força sobrenatural me mantivesse atacado à terra, obrigando-me a olhar nos olhos de uma criatura alienígena. Como se estivesse sentado ao bordo de um poço e a qualquer momento poderia cair dentro. Tenho certeza que muitos achariam que era exagero meu e que beirava ao ridículo. Por isso é que digo que o medo às vezes é uma coisa extremamente relativa.

Voltando a “e o pesadelo se tornou realidade…” era um filme como tantos outros, porém me deixou, de qualquer forma, com um estranho sentimento de angústia no estômago. A história era a de um jornalista que uma manha, se dirigiu ao aeroporto da sua cidade, pra escrever um artigo sobre um avião que parecia envolvido em um estranho mistério.

Á bordo, se encontra um cientista que hà muitos anos não se tinha notícias. O homem havia passado a maior parte do tempo em uma ilha perdida do pacífico, pra fazer pesquisas e experiências que na realidade se sabia pouco ou nada. Agora, ao improviso, o avião que o transportava, estava pra aterrissar, sem ter dado nenhum pré-aviso. Os últimos contatos com a base de contrôle pareciam muito estranhos. O piloto havia falado de uma epidemia não muito bem identificada, que teria manifestada, improvisamente, entre os tripulantes… depois, mais nada.

Prevendo um “furo” excepcional, o jornalista se precipitou ao aeroporto pra descobrir o que teria acontecido.Um grupo de curiosos e de repórter circundavam o avião, impedindo de fazer fotos. Finalmente a porta se abaixa. Ficou bloqueado entre as pessoas e não conseguia se aproximar. Foi uma sorte ter chegado atrasado, porque, assim que os passageiros desceram, se deu conta que eles não tinham mais nada de humano. Eram seres sedentos de sangue que se jogavam sobre as pessoas pra matá-las e nutrirem-se das suas carnes. Zumbì, em poucas palavras.

Consegue fugir mas, em pouco menos de um dia, toda a população se transforma em mortos que caminham. O jornalista se dà conta de ser um dos poucos sobreviventes. Entende que, não obstante todos os esforços, não seria por muito tempo. E’ só mesmo uma questão de tempo e pegarão ele também. Terrível. Tudo que construiu com tanto enfado, ter que terminar em um modo tão absurdo. Não tinha saida, nenhum lugar que pudesse se esconder.

Mas eis que acorda em uma poça de suor e se dà conta que teve sómente um sonho. Que alívio. Era um pesadelo. Com grande felicidade se dirigiu à cozinha pra tomar café. Enquanto o prepara, assobiando, toca o telefone. Como toda manhã, o seu chefe lhe informa sobre as notícias do dia. A notícia è a seguinte: um cientista do qual há muito tempo não se tinha notícias, està pra aterrissar sem pré-aviso.  Existe muito falatório a respeito. Era melhor correr ao aeroporto pra saber de que se trata.

Palido como um lençol, pega a capa e sai. Enquanto corre a toda velocidade pela estrada, mantém um olhar de quem se perdeu em profunda ponderação.

E eu sei tudo sobre isso: mas que porra! Não… imagina, nao è possível, eu sei o que é a vida. A vida são os três ou quatro kilômetros que você faz pra ir ao trabalho. São os jantares, os encontros, o sexo, as contas, o casamento e os filhos, talvez. A aposentadoria, talvez. As férias. Nada de demônios, nada de zumbí, nada conspirações alienígenas, nada triângulo das bermudas. Besteiras pra crianças analfabetas ou dementes e certamente não pra pessoas que estudaram por uma vida e que tem todos os parafusos no lugar.

Mas o avião parece aquele mesmo, as mesmas pessoas, e igualmente o aeroporto. E ídem pra a porta que se abaixa e… o pesadelo se torna realidade. Enquanto caminho angustiado pra voltar pra casa, entre os matos perto dos pinheiros, iluminados pela luz da lua cheia, me volta à mente próprio aquele filme.

Me sinto em culpa por todas as coisas que aconteceram nesses últimos meses. Deixei que se degenerassem sem ter feito nada pra evitá-lo. Não nego, porém, que sou eu que vou sempre à procura das situações mais absurdas que jà me aconteceram. Deveria pensar bem, antes de ir viver com Carl. Sabia muito bem que iria terminar na cadeia ou dentro de qualquer outro tipo de problemas absurdos. O problema è que, alguns meses atrás, não tinha outra escolha. Ou melhor, outra escolha tinha e como.

Abandonar os estudos universitários, abandonar a faculdade que fingia frequentar, apesar dos esforços e sacrifícios dos meus pais. Isso significaria trabalho forçado e, sinceramente, perder as três festas de cada semana, as saídas, as comilanças eram coisas que não poderia renunciar. Deveria fazer durar tudo isso o mais possível. O único problema è que, visto o meu escarso rendimento nos estudos, meus pais estavam jà tirando o cinturão e ainda mais, dada a crise econômica, os quebra-galhos que fazia me rendiam sómente o bastante pra comprar cigarros.

Um dia me telefona Carl, que agora, além de ser meu amigo era o meu “pusher” de confiança. A grama melhor de toda a região. Me disse que havia encontrado um apartamento legal a poucos passos da faculdade. O lugar è muito lindo. Três quartos, uma grande cozinha, uma sala enorme onde podemos fazer festas. O único problema è o aluguel. Não se trata de uma cifra monstruosa mas, è claro que sózinho não poderia arcar, por isso me pediu pra ir viver com ele. A idéia parece boa. Primeiro, isso significaria fumar grátis. Segundo, entrar no seu fantástico grupo de amizade feminina. Ele era uma presa muito desejada entre as universitárias. Era considerado um personagem. Além de ser muito atraente, sabia se vestir, sabia como se comportar. Não era o tipo anônimo. Não estava nunca muito dentro da moda nem muito demodè.  Sempre em equilíbrio com a moda que lhe fazia único e se distinguia dos demais. De família rica, havia viajado muito, desde pequeno; praticamente não existia nenhum argumento que ele não soubesse discutir. Era muito crítico com respeito aos professores e ao sistema escolar. Dizia que tudo eram noções estéreis e que não seria nunca de utilidade. A verdadeira escola era a rua. A única a dar uma cultura com todos os crismas. A Universidade? Uma obrigação imposta pelos pais… haveria de pegar aquele bendito canudo pra fazer-lhes parar de encher o saco e depois poderia finalmente, viver ao seu modo.

Me enchia os olhos, isso è verdade.  Me sentia quase lisonjeado pela sua oferta. Entre todos os amigos mais “em vista” escolheu logo eu. Pra dizer a verdade,, de vez em quando um grilo me cantava na mente. E se tivesse me escolhido porque me considerava um tipo inócuo, incapaz de roubar-lhe os refletores?

Uma outra coisa nos ligava além dos filmes de horror de série B: as brincadeiras. Adorávamos brincar, sem limites.

Á universidade éramos bem conhecidos por isso, e muitos pensavam duas vezes antes de pisar em nossos calos, por medo. Todos sabiam que éramos sempre nós os culpados. Ninguém, porém, nunca nos pegou em flagrante, nenhuma testemunha, nenhuma prova, nenhuma acusação. Nos tornamos uma especie de lenda metropolitana.

Implorei aos meus pais pra conceder-me um “empréstimo” pra os primeiros meses de aluguel… dizendo que o apartamento era o mais perto da faculdade e de manhã poderia acordar mais tarde pra frequentar as lições e, além do mais, tendo a casa há dois passos, poderia ter mais tempo pra estudar e bla, bla, bla…bla.

Acho que se possa pedir qualquer coisa aos pais que, o maior arrependimento que têm, è o de não ter podido estudar.

Os primeiros meses com Carl, foram um verdadeiro idílio, melhor de um casal. Nos entendíamos beníssimo.

Tinhamos decorado o amplo salão do nosso apartamento como uma discoteca dos anos 70. Paetés e veludo vermelho se desperdiçavam. Um mega som com  karaokê e tudo, e Carl havia decorado uma das paredes com umas estranhas composições feitas com papel manteiga. Pra dizer a verdade, parecia mais o set dos 1999Baseluna.

O vai-vai de gente era permanente. Um contínuo vai e vem a qualquer hora da noite ou do dia. Graças a Deus não tínhamos vizinhos particularmente chatos. Estávamos no andar térreo em um mini condomínio de quatro andares. No andar superior habitava um casal de velhos surdos, no terceiro, um casal de “clandestinos”. Ele, provavelmente jogador e ela, modela… se viam esporadicamente e não enchiam o saco, nunca; eram  impedidos pelo fato de não poder chamar muito à atenção. Estou falando sómente de alguns meses atrás e parece que se passou uma vida. Me pergunto, a esse ponto, se periodos como aqueles serao ainda tornados. Os problemas começaram quatro meses depois da nossa transferência. O problema principal, naturalmente, se chamava dinheiro. Estávamos todos os dois no vermelho e ambas as nossas famílias jà tinham se cansado de nos fazer contínuos “empréstimos” visto os escarsos resultados nos estudos.  A solução seria trabalhar meio turno, mas depois, quem conseguiria estudar?

Carl havia, além do mais, começado a ter problemas com seus “negócios”. A erva não parecia estar mais na moda, desde que apareceu uma nova droga que, se não me engano, era uma sorta de anestésico usado em cavalos, considerado muito trendy pelos ginasianos. Dizia que pra ele, usar coisas químicas era moralmente inaceitável, xingava toda essas novas gerações que não eram mais capaz de drogar-se. 

Precisava encontrar uma solução urgente. Já havia quase um mês que passávamos a pão e água e se não conseguíssemos pagar  o aluguel, aì então é que a vaca vai pra o brejo.

As alternativas que se apresentavam eram três: Ir pra uma daquelas grutas de refugiados que alguém continuava a chamar de casa do estudante. Voltar pra casa com o rabo entre as pernas e prometer à mãe e ao pai uma vida de trabalho duro na mineira. Ou então, a melhor, encontrar uma terceira pessoa disposta a dividir o aluguel. Essa última era, sem dúvidas, a mais conveniente. Tratava-se agora de encontrar o escolhido. Operação difícil, visto que deveria ser uma pessoa com qualidades e não uma qualquer. Além do mais, Carl não queria absolutamente uma moça em casa. E isso jà se exucluia uma grande fatia do ambiente universitário. As moças fariam filas, atraídas por ele. Quem dera encontrassemos uma com as medidas de uma top model. Talvez disposta a passar e cozinhar, a passear dentro de casa de sutiãn e calcinha e fazer alguma limpeza de vez em quando. O problema é que um de nós dois (ou talvez todos os dois) poderia conseguir, mas aì surgiria outros problemas. A pessoa em questão deveria ser uma pessoa elástica.

Elástica è o termo que veio em mente a nós dois. Elástica no sentido em que deveria habituar-se aos nossos ritmos, à musica até as altas horas, ao contínuo vai-e-vem de gente, ao fumo etc.

Foi iniciada a seleção. Depois do anúncio no mural, os telefonemas começaram a chegar. A maior parte era de moças, naturalmente. Algumas eram dispostas a tudo a fim de obter o lugar. Rapazes, pra dizer a verdade, bem pouco. Além do mais, eram uns azarados do primeiro ano que não conheciam ainda a nossa fama. Pra Carl, essa categoria não interessava, tinha medo que se deixassem influenciar pelo nosso estilo de vida e aprontassem alguma...ou pior ainda, poderiam se tornar incontroláveis. Os poucos que aceitaram de nos encontrar pareciam ter sempre alguma coisa errada: ou muito assanhado, ou muito vulgar, ou muito gordo, ou muito sujo, limpo demais, muito loiro, enfim, nao tinha nem mesmo um que agradasse. E enquanto o critério da escolha se tornava sempre mais rígido e paradoxais, as nossas risorsas, a esse ponto, eram quase nada. Pessoalmente, eu era de tal forma na merda que teria aceitado o primeiro disgraçado que se apresentasse à porta, mesmo se houvesse uma seringa cheia de cocaina na mão. Não estava com vontade de começar uma discussão. Teria mandado tudo pro ar.

Um dia recebi um telefonema de minha mãe. Disse que o filho de uma nossa parenta longe (nunca ouvi o nome antes), tinha acabado de se formar e ganhou uma borsa de estudos pra frequentar um curso universitáario em alguma coisa de ficção científica como física astro-nuclear ou coisa parecida. O garotinho è uma especie de CDF. Terminou o cientifico com 16 anos mas tem grandes problemas em se socializar. Parece que è um garoto particular, com uma inteligência superior à media. Tem tendência a se isolar. Os pais são felizes por ser assim tão intelectualmente dotado, mas têem medo de que ele se torne como aqueles CDFs paranóicos que passam a vida toda a estudar, até que um belo dia entra em tilt e se encontram pelas ruas a contar os carros que passam e a delirar sobre o fim do mundo.

Nós, ao invés, éramos tão scarsos nos estudos quanto sociáveis (as textuais palavras de minha mãe) logo, poderíamos ajudá-lo a abrir-se um pouco e ele, talvez, nos ajudasse nos estudos. No fundo, se tratava sómente de alguns meses. O curso terminaria logo. Nesse ínterim, poderíamos procurar outra pessoa, e além do mais, os pais de Michele eram pessoas muito ricas. No mínimo, poderíamos pediar alguma coisa pelo incômodo.

Tinha minhas dúvidas de como Carl consideraria a coisa. Achava que poderia responder alguma coisa tipo: “sim, certo que sim, agora tenho de me fazer até de Baby sitter pra uma espécie de desvalido…” mas provavelmente ele também estava dentro da merda, mais do que admitia, que aceitou de bom grado dizendo que um garoto de 16 anos, por ser tão inteligente, não poderia dar muito problema, pra ele seria uma espécie de distração. E depois, era de família rica…

 

Estávamos esperando ele com uma certa curiosidade. Carl até vestiu um conjunto em veludo azul marinho à Oscar Wilde e se colocou em pose na sua poltrona preferida. Em torno ao salão reinava uma confusão total. Um monte de coisas inúteis, vestidos, cuecas do dia anterior e ainda dos outros anteriores, depositados em cada canto da sala. Se tratava de um pequeno teste. Pra completar, colocaram um cd dos Slayer como fundo, um daqueles que dà nos nervos de qualquer um.

Michele me surpreendeu. Certamente não era o tipo que tinha imaginado. Talvez porque tinha em mente um estereótipo.  Pensava de encontrar em frente a mim um garoto magro, cheio de espinhas, com óculos fundo de garrafa e meias de varias cores. Ao invés, era um rapaz alto. Demonstrava pelo menos uns 20 anos, de corporatura média, nenhuma espina. Óculos, sim, mas não fundo de garrafa. Em geral, um tipo muito anônimo. O olhar, porém, sim que era estranho. Um olhar ausente quando se dirigia a um de nós dois, mas incrivelmente alerta e penetrante assim que posava em outra parte.

Notamos com satisfação que, assim que viu as cuecas sobre a poltrona, deixou transparecer a cara de nojo. Enquanto Carl nos servia de beber, não consegui colher nenhuma outra particularidade que julgasse de ser muito, muito interessante. Quando se sentou, o garoto afastou com dois dedos, uma meia da cadeira e logo depois, com excepcional velocidade, tirou do bolso um lencinho de papel, um daqueles embebidos em detergente. Se esfregou as mãos com aquela expressão grave de quem està fazendo uma operação da máxima importância. Que divertido. Não via a hora de contar a Carl. Mas a coisa mais engraçada aconteceu depois.  Enquanto estava me dirigindo à cozinha pra pegar umas cervejas, percebi que assim que meu amigo se voltou pra acender um cigarro, Michele limpou velozmente a copo também.

-          Bem Miki, a mãe do meu amigo disse que você è uma espécie de garoto prodígio… - disse Carl.

Michele, batizado jà por Miki, enrubeceu visivelmente.

-          Não penso de ser um garoto prodígio… eu terminei sómente o ginásio com dois anos de antecipação… minha mãe disse que sou como uma esponja, basta que veja uma coisa por um pouco de tempo e refaço-a imediatamente até mesmo melhor. No mais, tenho o dom particular da memória fotográfica.

Carl me deu uma olhada divertida.

-          Ha, è? Memória fotográfica? Interessante…

-          Sim-continuou friamente o garoto – é isso mesmo, tudo que leio fica gravado na mente como em um livro… é um dom natural e acho que sou muito sortudo por haver-lo. Me tem ajudado enormemente na escola – Carl riu suficientemente.

-          Micki falou dos seus estudos. Ficamos muito impressionados. É’ claro que o garoto tinha mesmo algo mais. Carl ficou indubitavelmente fascinado e tenho certeza de ter lido alguma ponta de inveja nos seus olhos.

-          Claro que tinha sido sempre considerado um garoto brilhante e pleno de argumentos, mas Miki… bem, Miki ficou claro desde o início que possuia algo que poderia ser definido especial.

-          Vede – continuou Carl – não te escondo que temos uma certa urgência em dividir o apartamento com alguém, dada a nossa situação econômica.

-          O fato è que a vida universitária é um pouco diferente, você é jóvem e não queremos que se sinta incomodado nem criar nenhum problema pra você… -

-          Sim, eu li alguma coisa sobre os jóvens na universidade. Além do mais, meu primo me fala muito sobre isso – Miki insinuou um sorriso malicioso – mas por mim não tem problema. Sou muito curioso da vida que vocês fazem aqui, juro, eu… eu me considero uma pessoa muito elástica. Me adapto muito facilmente a tudo e procurarei não criar problemas –

Elástica, pessoa elástica, a palavra chave.

-          Apesar de ter as minhas pequenas manias como todos, acho, não sou em absoluto uma pessoa invasiva, eu… -

Perguntei que tipo de mania estava falando.

-          Bem, tenho a mania da higiene, só pra começar. Sou muito escrupuloso na limpeza de tudo aquilo que entro em contato – olhou as mãos.

Carl riu – então isso pode ser um problema – fez um gesto com as mãos mostrando a bagunça em torna à sala – Não se pode dizer que somos particularmente fanáticos pela limpeza. Quanto à higiene…

-          Não tem importância. A mim basta um pequeno espaço pra gerenciar ao meu modo, não interferirei nunca com a parte de vocês. Mim basta um espaço com uma mesinha e uma cama. Eu me arranjo pra organizar dentro dos meus critérios.

-          Bem, e quanto ao barulho? Te incomoda? Porque nós ouvimos música muito alto. Algumas vezes até altas horas e não agrada a todos. Frequentemente fazemos festas e…

-          Não. Não me incomoda. Tenho uma boa capacidade de isolamento, como os gatos. Quando devo fazer uma coisa e me concentro, è difícil que algo me disturbe.

Trocamos uma breve olhada de afirmação. Carl lhe estendeu a mão – Muito bem – disse – A partir de hoje pode se considerar um de nós.

 

Era o garoto mais silencioso e tranquilo que jà tinha conhecido. Estava sempre calado no seu quarto, com um livro na mão. Desse jeito o deixávamos antes de sair de casa e do mesmo jeito o encontrávamos quendo chegávamos. Apesar de continuarmos com o nosso estilo de vida barulhento e bagunçado, não dava o menor sinal de disturbio. Sempre incrivelmente gentil, mesmo se achava, pra dizer a verdade, que muitas vezes aquela calma era até um pouco excessiva. Pensava que fosse um tipo tranquilo demais e o seu modo anormal de observar as coisas continuava a me incomodar.

-          Não serà um daqueles bonzinhos bonzinhos, calados, calados, calmos calmos, e um belo dia, quando menos se espera, se desabotoam, prendem uma foice, entram em um restaurante e fazem um desastre???-

Carl riu – calado, não entende nada… você e os seus filmes. Serà que não vê?? Apesar do seu grande cérebro è simplesmente um azarado. Além do mais, tenho certeza que é um medroso. Bastaria uma de nossas brincadeiras pra fazê-lo desandar no choro. Aliàs, sabe, seria bom fazermos uma com ele, algum dia desses. Ainda não lhe batizamos… era, porra… temos uma reputação a conservar!!

Sim, porém precisava encontrar um ponto fragil. Carl disse que ainda não havíamos conseguido individualizá-lo. Eu porém jà tenho uma idéia.

A despeito de todas as minhas previsões, Carl se simpatizou com ele. Levava-o sempre pelas ruas, lhe tratava como um discípulo. Era ele que lhe dizia como se vestir, como se pentear, o que ler, se quisesse fazer parte da “nata privilegiada”.

Assim, Miki descobriu um novo universo feito de beat generation, Valerie Solamas e Pop Art, Black Sabbath e Alister Crowley.

Carl era pra ele uma espécie de pigmalião, um guia perfeito pra ter acesso ao misterioso mundo post 20. De qualquer forma, o meu caro amigo estava mais que consciente e o seu ego derramava felicidade quando o apresentava aos amigos, como sendo o seu jóvem protegido. Fiquei contente por Miki ser como nós, mas ao mesmo tempo, continuava achando que tinha alguma coisa de desafinado naquele garoto. Alguma coisa que Carl não se apercebeu. Não saberia explicar com palavras. Não era sómente uma mania pela higiene. Aquele maldito modo de escrutar as pessoas e as coisas começava a irritar-me. Sei que existem aquelas pessoas com o vício de esquadrinhar a cada 5 minutos da cabeça aos pés, deixando-te em um estado desconcertante e alerta. Aqueles que, improvisamente, te fazem pensar: Oh, Deus!!! Estou com as calças manchadas e nem percebi; ou então, "estou com um buraco nas calças e està se vendo tudo” e, como diz a regra, você não tem a caragem de abaixar os olhos naquela direção porque seria ainda mais embaraçante. Porém, o seu modo de olhar de observar as pessoas era diferente. Havia um quê de anormal, de obsessivo. Fugidio, se deveria te olhar na cara mas incrivelmente penetrante quando observava sem ser observado. E depois, o surpreendi mais de uma vez girando pela casa sem acender a luz, enquanto sussurrava entre si, frases incompreensíveis.

As duas vezes que peguei ele a “observar” Carl, cheguei ao ponto de me perguntar se por baixo não havia alguma tendência estranha.

Aconteceu uma outra coisa algum tempo depois, mais não falei nada porque nao tinha certeza que tivesse acontecido mesmo. Digamos que tenho 99% de certeza mas acho uma coisa muito absurda. Estava cochilando, em uma daquelas situações noturnas atormentadas em que não conseguimos dormir. Dorme e acorda umas vinte vezes e a um certo ponto não se sabe mais quando està acordado ou dormindo. Deveria ser umas 4 da manhã. Estava completando a enésima pirueta no colchao quando ouvi um barulho às minhas costas. Me voltei com os olhos semi-abertos e a mente completamente entorpecida.

Na penumbra, me pareceu de ter notado como um flash, a figura de Miki. Estava em pé no canto em fundo à sala, semi-escondido pela cortina e me observava em silêncio. Naquele momento pensei que fosse um sonho. Me girei simplesmente da outra parte, decidido a pegar no sono. Mas no dia seguinte, com a mente lucida, não tinha tanta certeza de ter sómente sonhado.

No último telefonema, minha mãe me havia dito que o garoto era hipocondríaco. Naturalmente jà tinha imaginado há tempo. O primeiro grande indício: a obsessão pelos lenços higiênicos que levava perenemente no bolso e com os quais limpava tudo: das cadeiras às maçanetas, dos copos à mesa. Lavava as mãos pelo menos 300 vezes ao dia.

Segundo: afirmava em continuação de se “sentir estranho”. Atribuiva a culpa a um virus que não conseguia vir fora e que o afligia ciclicamente.  Desde que o conheci que tinha esse virus, e visto que não tinha morrido ainda, a coisa parecia muito suspeita. Falando com minha mãe, vim a saber que Micki estava sendo curado, em parte por esses problemas.  Sim, enfim, era um hipocondríaco no verdadeiro sentido da palavra. Um hipocondríaco patológico.

Uma manhã, estava se lavando mais do normal. Em realidade estava tendo o que se poderia dizer uma crise alérgica. Continuava a espirrar e a se lamentar de dores em toda parte. Pela enésima vez, chingava e praguejava por aquele virus,, como chamava ele, “aquele vírus” .. “Que droga, estou de novo com “aquele vírus”, não quer saber de ir embora, não passa nunca…

Lhe disse que na realidade ele não tinha nenhum virus. Era estressado porque passava muito tempo sobre os livros, não saia nunca… deveria tentar se divertir um pouco’.

Grande erro. Nunca diga a um hipocondríaco que è coisa da sua cabeça. Acho que os gritos se ouviram no final da rua.

Ele não era louco. Ele estava documentado. Tinha lido sobre todos os vírus possíveis. Havia muitos. Eu não poderia nem imaginar quantos. E os governos de todo o mundo continuavam a produzir novos…. Que porra, nuunca tinha ouvido falar de armas biológicas? O que eu sabia daquilo que tinham botado no ar em todo o mundo. Seria eu capaz, e assim qualquer outra pessoa, de dizer com certeza o que se tramava nos laboratórios secretos dos governos de todo o mundo, a dano da população? Daquilo que estavam fazendo experiência? Não ouvia nunca os telejornais?

E aquela era sómente um milésimo da verdade escondida e… continuou assim por bem meia hora.

Quando o vi assim tão enraivado pela primeira vez, fiquei literalmente de boca aberta, sem poder referi uma palavra.

Além do mais, o que poderia dizer? O que poderia argumentar, que prova que possuia pra derrubar a sua tese?

Parecia ter se acalmado. Pediu desculpas, que infelizmente não se sentia bem, acontecia muito frequente de se enraivar facilmente. Me implorou de não dizer nada a Carl. Não queria passar como uma “má pessoa”. Disse assim mesmo: “Má pessoa”. 

 

Durante o primeiro ano de universidade, no curso de história moderna, conhecemos Sandra. Logo se tornou uma das garotas mais  “famosas” da faculdade. Não tanto pela sua beleza. Não era particularmente bonita: pouco seios, orelhas pra fora, um tipo como outro qualquer. Bastava que lhe botasse em um grupo de protesto em favor de alguma classe de minoria pra vê-la transformar-se em Xena, a princesa guereira. Sempre a primeira a tomar a palavra durante os debates na faculdade, nas ocupações, nas greves. Quando não era pela causa de maltratamento de mulheres afganistas, era pelos cães abandonados pelas estradas ou crianças chilenas ou insetos em via de extinção do Kazakistan. A lenda exige que tenha havido alguma coisa entre ela e Carl, mas que ele tenha sido abandonado de um  modo mal visto, o que significa ter sido jogada do carro em movimento durante uma briga violenta e por cima, ter dado um pontapé nos ovos. Sinceramente, nunca consegui entender se essa história fosse verdadeira ou falsa. Quando tentei perguntar ao diretamente interessado, notei um certo nervosismo e a resposta foi muito vaga. Assim decidi não indagar além. Continuo a me perguntar por que Carl decidiu convidá-la. Porém, sei que a situação começou a se degenerar, exatamente a partir daquela noite.

Lembro deles como se fosse ontem, apoiados à porta da cozinha, negligenciados pela turma de bebados que de vez em quando invadia barulhentamente o territorio deles. Discutiam com um copo de vinho na mão. Namoravam como dois pombinhos. Quando finalmente conseguiram desvincular-se pra se unirem aos outros convidados, Sandra não parou nem um minuto de elogiar Miki. Continuava a repetir que em toda a vida sua, nunca tinha encontrado um rapaz assim tão brilhante e tão interessante.  – Quero absolutamente convidá-lo a um dos meus jantares – disse, passando descuidadamente perto de Carl. Hoje em dia è tão difícil encontrar uma homem que tenha alguma coisa de realmente interessante pra contar em um jantar… -

Tinha pensado mais de uma vez que o meu amigo escondesse algum segredo que no fundo lhe constrangia a se sentir uma bosta e consequentemente lhe impulsionasse a se comportar como um idiota.

Naquela noite ele ficou particularmente retado. Esperava isso. Na sua cabeça egocêntrica e mal resolvida, Miki tinha lhe humilhado diante dos seus amigos, no seu território.

Por isso, quase que quebro o joelho, batendo na quina da mesinha de sala enquanto tentava de tirar o braço de Carl que apertava o pescoço dele. Não me lembro com precisão como começou a briga. Estávamos todos bastante bêbados. Lembro sómente que Carl tinha saltado a mesinha cheia de copos ainda cheios e o pegou pelo pescoço, arrastando-o pra o banheiro enquanto cuspia palavras e frases desconexas. A esse ponto decidi intervir.

-          Bastardo, està pensando de ser o gênio da situação, né? Você tà na minha casa e não te permito de roubar a minha garota, claro? Que porra pensa que è, seu cafageste, pedaço de merda…

Tentei arrancar Miki das suas garras, mas parecia que o alcool tivesse lhe dado uma força sobre humana.

-          E tu, não o defenda e não te meta porque senão vai sobrar pra você… E não me diga de ficar calmo, porra! Estou na minha casa e faço o que quiser.

Me jogou literalmente contra a parede.

O pobre Miki não tinha coragem de falar. Continuava a olhar pra mim e pra ele imperterrito. Com uma cara de medo de fazer pena. Segurando-o sempre  pelo pescoço, o obrigou a sentar-se na privada.

-          Fique aqui, fique aqui pobre imbecil esse è o seu lugar, azarado è o que você è, se não tivesse me conhecido, ninguém te consideraria. – Saiu do banheiro trocando as pernas e se dirigiu ao seu quarto, mostrando o dedo médio. Micki sentado ainda na privada, mudo e claramente ressentido, com o olhar fixo nos azuleijos da parede. Visivelmente fazia um esforço pra não cair no choro. Não se voltou pra me olhar nem mesmo quando me sentei no bidé perto dele pra tentar de alguma maneira a recuperar a situação. Justifiquei carl dizendo que ele não prentendeva em absoluto, dizer aquelas coisas. O problema era que quando se embebedava perdia completamente o contrôle. Falei por bem 15 minutos e por todo aquele tempo o garoto continuou a fixar a parede, sem abrir a boca. Tentei também de levantà-lo pra lhe tirar daquela postação mas não consegui. Decidi não insistir e o deixei no banheiro com a luz acesa, achando que quando passasse o choque, iria pra sua cama.

No dia seguinte, acordei muito tarde e, naturalmente, com uma forte dor de cabeça. Fui na cozinha procurar uma aspirina e tomar um café. Me dei conta que a luz do banheiro estava ainda acesa. Me lembrei de repente da noite anterior e, suspirando, fui apagà-la.

Pensei em uma alucinação pós-porre.

Micki ainda estava ali, Tinha dormido, ou melhor, passado a noite ali. Na mesma posição da noite anterior. Mesmo olhar vazio, fixava inerte a parede. Acho que foi aí que senti, pela primeira vez, um leve arrepio na coluna. A esse ponto estava claro que o menino tinha um parafuso fora do lugar. Incomensurável. Não existe outro adjetivo. Se saiu com outra das suas, e dessa vez tinha superado ele mesmo.

 Parece de tê-lo ainda diante dos meus olhos, xícara de chá ao limão, conjuntinho cor de vinho, pernas cruzadas, enquanto dizia com toda seriedade de licantropia (imitaçao de lobisomen) – uma doença hereditada – acrescentou.

-          Na familia existia outros casos… o avô, o tio… e talvez outros. Até agora não teve problema. Havia gerenciado o problema com sabedoria. As pessoas geralmente confundiam a doença com a lenda do lobisomen. Isso tinha lhe causado alguns problemas no passado, por isso não gostava de falar. O bastardo tinha todos os documentos. O modo que contava bobagens… deus era unico, ninguém conseguia contar como ele. Conhecendo, então, a escrupulosidade maniacal de Miki em se informar a respeito de tudo, tinha falado em maneira minunciosa das provas científicas. Citou um tal David Dolphin, um cientista que tinha classificado a licantropia como uma grave forma de "porfiria”. Trata-se de uma forma de disfunção pela qual alguns agentes químicos, ditos porfirinas, mudam o oxigênio no sangue. A mutação produziria uma toxina capaz de entre outras, deteriorar a pele. A causa principal seria imputada à falta de uma substância chamada EME, que era produzida pelo fígado e è a responsável pela coloração do sangue. Explicou que as pessoas afetadas por essa doença são sujeitas a frequentes crises, principalmente em proximidade das noites de lua cheia, durante as quais, pode acontecer que alternem momentos de lucidez e momentos de falta de controle. Em linhas gerais, è uma doença hereditária, mas jà aconteceu algumas vezes de ser transmitida pela saliva ou, entre sujeitos particularmente fracos, com um simples arranhão.

Não éramos siguros que tivéssimos caido nessa. Ficou um interdito. Várias vezes tinha aberto a boca com nitida intenção de dizer alguma coisa, mas fechava imediatamente. Por alguns dias, tentou até nos evitar, mas eu pensei que fosse porque tinhe achado que tínhamos gozado com a cara dele.

Um dia se apresenta um amigo seu, um outro meio genialoide que tinha uns dois anos mais que ele e estudava medicina. Esse tipo tinha as chaves da sala da faculdade considerada tabù. Decidiu levar Miki pra fazer um passeio naquela que os outros estudantes chamavam “sala das maravilhas”, praticamente a sala onde conservavam os frascos cheios de formol.  Os freaks, as brincadeiras da natureza.

Fetos com anomalias genéticas além de qualquer imaginação. Voltou pra casa pálido como um lençol, contando de ter visto com duas cabeças, com um olho só, estilo cíclope, e até um com escamas como peixes.

-          Claro que a natureza è mesmo estranha – nos disse reflexivo, enquanto fritava um ovo, procurando parecer o mais calmo possível – Minha avó me diz sempre que em cada lenda existe um fundo de verdade… quero dizer… as sereias, os centauros, de alguma parte… teriam tirado essas idéias de alguma parte!

Naturalmente, a esse ponto, pensamos de levar a brincadeira a um nível superior.

O ferro, como se sabe, se bate enquanto è quente.

Desde aquela noite da declaração de Carl que estávamos todos esperando a primeira noite de lua cheia.

Naturalmente, todos os três não dava a entender nada. Todos os três escondiam nos respectivos quartos o calendário com as fases lunares.

Carl não me tinha dito com precisão o que tinha em mente e eu esperava com impaciência as suas ações. Isso significava, ter de improvisar. No passado tínhamos feito isso muitas vezes. Naquela noite tínhamos comprado o jantar em um restaurante. Frango assado e batatinhas, o prato das noites especiais. E’ inutil dizer que na mesa reinava um silêncio absoluto.  A um certo ponto, Carl se levanta de improviso, com uma expressão de quem está pra vomitar. Consegue eté empalidecer. Me pediu se poderia, por favor, levar a janta no seu quarto e com uma expressão de mártir estampada no rosto, acrescentou em voz baixa:

-          Me perdoem, estou muito, muito doente.

Tive de recorrer a todo o meu self control pra não explodir em risadas…

O corredor parecia mais escuro do que nos outros dias. Enquanto caminhava com a bandeja na mão, podia sentir o respiro forte de Miki no meu pescoço. Lhe tranquilizei dizedndo-lhe que não era a primeira vez que tinha de lhe assistir durante uma das suas crises.. Tudo OK. Bastava que não lhe irritasse. Algumas vezes pude notar que ele fazia umas estranhas vozes… mas nada mais. Passei a bandeja a Miki. Bati na porta. Ouvimos um rugido tão enraivecido que nos fez saltar pra trás. Uma mão arrancou rapidamente a bandeja das mãos de Mcki que tremia de forma incontrolável. Mordi o interior da bochecha pra poder controlar a crise de riso.

Pedi a Miki de não falar com ninguém… sabe como são racistas essas pessoas… e poderia com certeza danejar a reputação do meu amigo.

-          Lógico, entendo, sei quanto a ignorância possa arruinar as pessoas, e muitos poderiam até se sentir realmente diferentes e marginalizados…

-          Nunca vi alguém mudar de cor assim tão rapidamente… vi transformar-se velozmente da mesma cor da parede. Tão branco que por um momento tive a impressão de ter diante de mim dois olhos que me fixavam suspensos com uma malheta e um par de jeans. Antes que pudesse abrir a boca pra perguntar-lhe o que lhe tinha acontecido, me dei conta que tinha um leve corte na mão direita.

-          Meu Deus – murmurou – Meu Deus, meu Deus, meu Deus…  me arranhou!!! Me arranhou!!!

Pronto.  Àquele ponto, qualquer pessoa que tem os parafusos no lugar teria decidido que a brincadeira è boa até quando dura pouco.  Implorei a Carl pra dizer ao pobrezinho que era tudo uma brincadeira. Miki estava fora de si. Zanzava pela casa como um zumbì. Respondia somente com monossílabos e passava a maior parte do seu tempo na biblioteca.

Tenho dúvidas se conseguia dormir, tinha sempre dois círculos escuros em torno aos olhos. Me sentia terrivelmente culpado. Pela primeira vez, durante os últimos três anos, comecei a nutrir um discreto sentimento de desgosto por aquele que considerava o meu melhor amigo. A arrogância e a maldade de Carl tinham chegado a um ponto de desgostar-me. Assim decidi pegar ele pelos peitos.

Não gostou, pra dizer a verdade, a até acho que obteve um efeito contrário.  As reprovações por parte daquele que provavelmente considerava o seu “digno compadre” não podia engolir. Quando lhe disse que tinha exagerado com Miki e que tinha chegado a hora de parar, me respondeu que ainda não tinha terminada nem tinha a minima intenção. Lhe chamei de irresponsável. Tínhamos assustado até a morte o pobre Miki e precisava acabar com isso.

Nòs fomos, definitivamente, o seu primeiro contato com o mundo “externo” e, por culpa nossa, poderia terminar pensando que o mundo fosse realmente de doidos.

Carl começou a se alterar. Disse que nòs estavamos enloquecendo por causa daquele miserável. Tinhamos lhe dado muita importância desde o início e era hora de acabar. Não me lembro exatamente como foi, mas a um certo ponto acho que disse alguma coisa que lhe enraiveceu. Me encontrei por terra enquanto Carl, a três centímetros da minha cara, me agarrava pelo pescoço.

Havia os olhos injetados de sangue e uma expressão que não me lembro de ter visto nunca antes.

-          Quem te disse que não è verdade? Você jà me viu durante as noites de lua cheia? Você se lembra, AMIGO? Nunca fez as contas?? AMIGO??… - e Deus me perdoe se, por um instante, nãao tive a impressão de ver alguma coisa mudar na sua cara… os dentes ficarem mais agudos e longos, os olhos… Alguma coisa de estranho estava acontecendo aos seus olhos. Deveria ter sido somente a expressão devida à raiva e eu me deixer sugestionar. As coisas estavam realmente precipitando. Não tinha vontade de brigar com ninguém, mas era claro que, se continuasse naquela casa, provavelmente correria risco de perder a cabeça. Deveria ir-me embora.

Decidi de procurar outro apartamento, em segredo. Cada um tem o seu estilo. Eu estava me eclipsando e fazia de conta que as coisas estavam bem. Assim, quando minha mãe me contou que Miki também tinha decidido de encontrar outro lugar, dei um sospiro de alivio. Não queria deixá-lo sózinho naquela casa com Carl.

A noite que teria mudado tudo chegou algum tempo depois.

Estava na cozinha lendo o jornal, como fazia todas as tardes, bebendo uma xícara de café e dando de vez em quando uma olhada por cima dos pinheiros, fora da janela.

Apareceu Carl, com uma expressão perenemente chocada, desde que tivemos aquela “pequena” discussão. Fez de conta que não me viu. Miki tinha lhe seguido.

-          Preciso lhe falar, Carl… - disse com voz incrivelmente firme.

Peguei então o jornal e os cigarros e sai decidido a descer na cidade pra comprar alguma coisa pra o jantar e algumas latas de cerveja.

 

Muitos anos atrás, quando fazia ainda o primeiro ano de ginásio, li “A Maquina do Tempo” de Wells. Como sempre, 99% dos livros lidos, nao lembro de quase nada. Mas ficou em minha mente, porém, mesmo de maneira confusa, um único episódio. O protagonista -–o viajante da máquina do tempo – terminou por entrar em uma época não bem definida na terra. O povo que vivia alì, parecia ter perdido a consciência de si e dos outros. Caminhavam com o olhar perdido no vazio pelas ruas, anônimas, e cada um parecia o clone do outro. Pra acrescentar ao fato de per si jà bastante angustiante, aparecia de vez em quando uma presença não bem definida e tirava um de debaixo da terra. A um certo momento a tal indivíduo começava a se animar e expremir gritos estranhos e desarticulados. Com expressão de terror, se sacudia e se soltava com todas as forças, despertado, improvisamente , pelo instinto de sobrevivência.  Diante aos seus inúteis esforços, os outros continuavam impertérritos e indiferentes pela sua estrada até que aquela presença tirava fora um outro.

Naquela noite, enquanto entrava em casa, não tinha nenhum problema em particular… sómente um bem pequeno referente a Carl e Miki. Miki tinha dito a Carl sobre o ser transferimento? E se disse, como teria reagido?

O sol estava se pondo. O caminho arborizado que terminava bem de frenta em minha casa, nunca foi muito iluminado e era por isso que, quando chegava perto de casa, apressava os passos. Quando cheguei perto e pude ver a janela da cozinha, logo, logo me dei conta que tinha alguma coisa errada. Bem no centro da janela se via um grande buraco. Sim, era verdade, tinham arrombata, estava quebrada. Me aproximei o mais rápido possível e percebi o grande buraco e os fragmentos do vidro espalhados pelo chão. Brilhavam como pequenos cristais swaroski, tudo em torno ao muro verde. Tive um mau pressentimento, mas procurei manter a calma. Talvez alguém tentou improvisar um partida voando. Ou então, Miki, desajeitadamente, deixou cair alguma coisa.  Uma vozinha, porém, continuava a martelar na minha cabeça me dizendo que tinha acontecido algo muito desagradável.Subi as escadas de um fôlego só, chamando meus amigos em alta voz. Encontrei a porta encostada e minhas mãos começaram a tremer levemente enquanto procurava a maçaneta pra fechar às minhas costas. Talvez os dois tinham decidido pregar-me uma peça. Devia ser isso. Carl tinha decidido fazer uma brincadeira comigo, junto com Miki pra me fazer pagar.

Atraversei o corredor em ponta dos pés, continuando a chamá-los com voz cada vez mais febril. Repetia a mim mesmo que Miki entraria a qualquer momento. Talvez tinha ido jogar o lixo fora, por isso tinha deixado a porta aberta. Fazia sempre assim quando ia jogar o lixo fora. E Carl, talvez deveria estar tomando banho e não me ouviu chegar. Os vidros quebrados… algum dos dois deixou cair acidentalmente alguma coisa.  Uma laranja jogada fora de mal jeito, ou…

Na penumbra, alguma coisa escura e familiar, despontava por baixo da mesa.  Tremendo de medo, apalpei a padere procurando o interruptor da luz.

Me aproximei com cautela pra entender de que coisa se tratava.  Eram dois pés, dois pés agarrados às pernas de alguém que se encontrava de bruço debaixo da mesa.

Carl estava com os olhos arregalados e respirava mal. Instintivamente tentei puxar a sua cabeça. Lhe perguntei o que tinha acontecido. Me dei conta de ter as mãos pegajosas de sangue, Assim que comecei a entender a situação, vi que tinha um grande corte no peito, a cabeça parecia ter sido amassada na altura da têmpora esquerda e no chão, em meio ao sangue, tinha estranhos fragmentos grumosos e escuros.

Fixava inerte o teto, os olhos arregalados e inexpressivos. O peito levantava e abaixava em modo quase imperceptivel. O rosto era uma máscara de cêra e, a julgar pelo sangue que continuava a perder, entendi que estava pra morrer.

Enquanto segurava o celular, as palavras me saiam da boca sem nem mesmo aperceber. Acho de ter dito coisas do tipo… um acidente, està morrendo, corram… socorro. Não consigo absolutamente a lembrar-me as palavras exatas. Fluivam da minha boca sem comando, como naqueles filmes policiais idiotas que passam em continuação na Tv.  O que me lembro bem era o que pensava naquele momento. Pensava que, na realidade, deveria ser um horrível sonho, ou uma brincadeira arquitetada bem demais. A vida não è nada disso. A universidade, os exames, as férias, o trabalho, as garotas. Acordaris de um momento a outro.

 

Depois das devidas análises e as várias inspeções,  a versão oficial da policia era a seguinte: os meus amigos se encontravam na cozinha, quando um animal, provavelmente um grande cão-lôbo vagabundo, entrou em casa pela porta principal encontrada aberta. Foi atraido à cozinha pelo cheiro da comida. Pegado de sorpresa, Carl foi o primeiro a ser agredido. Miki conseguiu escapar. Esse último deveria ter se embocado nos pinheiros em estado de choque. Nesse ínterim, o lôbo pensou em sair pela janela fechada. Miki foi encontrado no pinheiral. Estava ainda desmaiado. Tinha as vestes sujas de sangue e completamente dilaceradas. Quando voltou a si, afirmou que a única coisa que se lembrava era o fato de estar na cozinha com Carl. Estavam discutindo quando a um certo ponto, booom, escuridão total.

Acordou no pinheiral, desorientado e com dor em toda a parte. Isso foi o que contou à policia. Mas tinha alguma coisa de inquetante no seu modo de falar, no seu comportamento alarmado mas incrivelmente sereno. Me olhava até diretamente nos olhos. Dava a sólida impressão de ostentar uma improvisa e ao mesmo tempo misteriosa tomada de consciência. Nos seus olhos notava-se uma nova luz que parecia dizer: “Eu sei, e pra vocês sou somente digno de pena”.

A última vez que lhe vi foi quando nos mudamos do apartamento. Enquanto saia pela porta com as últimas malas, apoiou uma mão nos meus ombros e me sussurrou ao ouvido:

- Me perdoe,… estou muito, muito doente.