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Que hora!!!
( André Luiz Orsioli BRA )
Declamou um poema de Dia das Mães que levou às lágrimas as mães do pré-primário, incluindo-se a dele; Tirou nota dez na chamada oral de geografia no ginásio;
Ministrou aulas de reforço para a turma do colégio - ressaltando-se sua capacidade de fazer-se entender;
Teve uma banda de garagem na mesma época. Era o vocalista;
Na formatura foi o orador da turma;
E discursou no baile – contou até piadas;
Locutor da rádio estudantil na faculdade;
E líder do grêmio;
Negociador , em nome da sala, perante professores;
do curso perante o coordenador;
de todo o campus perante o reitor;
Anfitrião eloqüente e carismático, quando da visita de representantes do MEC.
Tornou-se até amigo do Ministro;
No primeiro emprego, deixava muitos colegas impressionados pelo modo de falar;
Ao telefone, tinha a imponência de um diretor da empresa – embora o último dos estagiários;
Nas confraternizações, era o cantor, contador de casos e piadista preferido;
E nas conseqüentes promoções, fazia agradecimentos curtos, mas precisos e até emocionantes;
Quando assumiu uma das diretorias, todos aplaudiram seu discurso com louvor;
Na presidência, esbanjou nas palestras, conferências e feiras. Não tinha secretária - ele mesmo atendia a todas as ligações. E falava com todos os funcionários que encontrava.
E, mesmo com apenas 28 anos – o mais jovem presidente da história da companhia e de todas as outras – sua segurança ao falar, presença e colocação diante colegas, platéias e multidões eram impressionantes - a causa, com efeito, de seu sucesso retumbante...
Mas, um dia, aconteceu: enxergou-a no meio dos apressados compradores em véspera de Natal – no maior shopping da cidade. Na multidão destacava-se um pontinho loiro, que seguiu até o estacionamento, ouvindo o coração retumbar, respiração curta e rápida – o famoso amor à primeira vista – e a não menos intensa sensação que era ela o amor de sua vida, a mãe de seus filhos... A cinco metros dela, estancou. De costas era linda! Cabelos loiros compridos e corpo esguio, clássico. Ela virou-se. A respiração curta e o coração imediatamente pararam: era esplêndida! A sensação de futuro-eterno-amor ganhou ainda mais cor, aflorou-se a volúpia - súbita e violenta - e ele percebeu , por acaso, que chorava.
A menina olhou-o com curiosidade, percebendo a emoção do rapaz. E sorriu, corando suavemente e com brilho nos olhos.
Foi correspondido!
Flutuou por alguns momentos, e percebeu que estavam ao alcance de um beijo. E abriu a boca para declamar as mais belas palavras que aprendera durante sua vida, com a entonação romântica dramática apropriada para o momento, e sentiu-se subindo as escadas rumo ao palco, para o grande discurso do Amor:
- GRhnnnnnnansssssqui?
A voz embargou, ele não conseguiu articular a frase. A menina sorriu com graça de seu embaraço.
- Vecccccsendddddqui?
Ela olhou-o curiosa. O riso tornou-se uma linha fina nos lábios.
- Vovovovovocececececesendidiquiquaqui?
Ela meteu a mão na bolsa e puxou a chave do carro. Na outra mão, segurou um objeto que ele não conseguiu distinguir.
Nervoso consigo mesmo, fechou os olhos, calou-se e respirou muito fundo.
Formulou a frase mentalmente e abriu os olhos, encarando-a sério. Ela apertou o objeto misterioso na mão.
- Manhenthingstrongastmannnn.... droga .... purstricaaaaaaaarticulaaaaaaaa ... mas não é possível!!!
Tentou pegar a mão dela para firmar-se no mundo novamente e vencer aquela absurda gagueira misturada com lapso mental. A mão do objeto incógnito fez um brusco movimento, ele sentiu algo quente tocar sua barriga por cima da camisa, e em seguida um violento choque percorrer seu corpo. Caiu e, contorcendo-se, observou o rosto de pavor da menina.
Apressada, ela abriu o carro e trancou-se dentro, com uma expressão tanto assustada quanto desapontada.
O choque foi violento. Estava surpreso e ao mesmo tempo confuso. Ergueu-se enquanto ela tirava o carro da vaga, e seguiu-a pelo estacionamento correndo de forma cômica, ainda um pouco adormecido pelo choque. A segurança percebeu a situação, correu a seu encontro e o imobilizou rapidamente. Foi levado para uma sala reservada, sob olhares curiosos dos clientes. Um guarda chegou a conjecturar que ele estivesse drogado!
Os efeitos do choque passaram , e foi-lhe dada a chance de se explicar – falou sem nenhuma dificuldade - e em seguida uma esperança relampeou em suas idéias:
- Alguém pegou a placa do carro?
Por mais que alguém quisesse anotá-la, não daria! Pelo monitor das câmeras de segurança, o apaixonado mestre em oratória viu – e soltou um palavrão com toda a força de sua potente voz - o carro da sua súbita paixão loira tinir à luz do Sol, ao entrar e ao sair do estacionamento. Novinho em folha, ainda não estava emplacado!
A menina chorava enquanto dirigia. Ainda agarrava o eletro-choque para defesa pessoal que ganhara do pai. O mundo, como ele dizia, estava cheio de maldades e gente desequilibrada! Assustada, nervosa e frustrada, à poucos minutos achara que aquele belo jovem seria o amor da sua vida.
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Saiba mais sobre o autor:
André Luiz Orsioli, 26 anos, nascido em Santo André (SP), é graduado em Ciências da Computação, Bancário. Sem trabalhos, colaborações ou publicações anteriores. Explora o cotidiano e suas possibilidades ao escrever. Gosta de Mário Prata, Veríssimo, Clarisse Lispector ("minha veia para contos tem boas origens, portanto"), Stephen King e outros.
Para entrar em contato com ele, escreva para: andre_orsioli@hotmail.com