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A bandeira

( José-Augusto de Carvalho POR )

 

 

 

                                                           --- Para a Poetisa Lizete Abrahão ---

 

No cimo do mastro

tremula a bandeira...

 

Sob o vento Norte,

tremendo de frio,

ao trémulo sol,

sem calor nem brilho...

 

Sob o vento Sul,

suspirando, morna,

p'la cor tropical

volúpia e nudez...

 

Sob o vento Leste,

abrindo-se em asas

batidas p'lo fogo

do dia que nasce...

 

Sob o vento Oeste,

memória no ocaso,

de quanto não pôde

recusa e renùncia...

  

Um pano curtido,

batendo ao relento

as horas do tempo

de sol e de chuva,

desmaiada a cor,

esgaçado o fio...

 

O símbolo vivo

da terra que é minha

e que se esfarela

na palma da mão...

 

Símbolo de um tempo

num tempo de símbolos,

o significante

sem significado...

 

Uma hóstia profana,

que simbolizando

pão da minha fome,

na mesa escasseia...

 

 Simbolicamente,

 a terra é a mãe,

a hóstia é o pão

da fome da carne...

 

Simbolicamente,

é tudo o que resta

duma hibernação

sem despertador...

 

Simbolicamente,

o tempo que foi,

o tempo que passa,

o tempo futuro...

 

E a vida concreta,

que espera na rua,

 que vive e palpita

quando sobe ao mastro,

desfraldada ao vento,

e é uma bandeira

a cantar a vida...

 

***

 

Viana do Alentejo *  Évora * Portugal