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O eremita profano
( José-Augusto de Carvalho POR )
Para Sônia van Dijck
Folheio, atentamente, o dicionário,
sempre na esperança de encontrar
as palavras precisas para o meu discurso.
Exausto, o dicionário submete-se à pesquisa,
com a paciência dos tempos antigos,
quando o tempo corria devagar
e a memória mantinha a dignidade
da sabedoria dos velhos,
que apontava austeramente o caminho a percorrer.
Mas o tempo sem memória,
que se cumpre neste ciclo,
estigmatiza a velha sabedoria
e já não tem vocabulário
que enforme o meu discurso.
Olho, perplexo, o mundo circundante.
E minha boca, sem palavras,
é o silêncio incendiado
que me acena dos longes que vão morrendo
nas cores moribundas dos poentes.
A vela que me alumia,
açoitada pela ventania dos caminhos ermos,
é a ameaça duma noite que teima descer,
tudo envolvendo em densa escuridão.
Eremita profano, sem deserto,
rezando aos amanhãs aureolados de futuro,
sofro os sarcasmos irracionais dos energúmenos
e atroam-me os ouvidos os fantasmas
martelando com as botas os caminhos
de todos os holocaustos.
Intemporal,
atolo-me no pó do caos e do silêncio
e amasso, com o meu sangue, o barro transcendental
que a lenda há-de modelar
num recomeço de esperança e de verdade.
***
8 de abril de 1996.
Tavira * Portugal