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Ponto Morto
( Raymundo Silveira BRA )

 

 

 

 

Carro em ponto morto. Motorista também. Motor funcionando. Cinco minutos antes, era. Agora que se morreu, sequer está. Não passa de uma coisa. Como se nunca tivesse nascido nem vivido. Um acidente. Para a maioria, um lixo espacial que desabou e, por sorte, não atingiu ninguém. Talvez nem isso. Para uns poucos estranhos, uma chatice. Para a família, um estorvo.

Motorista em ponto morto. Carro não mais. Um taxista desligou o motor e engrenou uma primeira. Rua ruidosa. Auge do rush. Atulhada de pedestres. A superfície plana do terreno evitou uma tragédia. Só uma pessoa se queixava. Um comerciante, lesado em seus direitos, esbravejava: “Porra, tanto espaço e esse viado entendeu de vir morrer logo aqui em frente...” Teve azar: uma pequena multidão se formou ao redor do automóvel e bloqueava a entrada de clientes. Era alta estação. O centro fervilhava de turistas. “Por favor, retirem daqui”. “E levar pra onde?” Perguntou um dos circunstantes.  “Sei lá. Pra puta que o pariu. Uma rua tão comprida... Isso é uma merda. Como se não bastassem os camelôs pra atazanar a vida de comerciantes honestos que pagam os impostos em dia, agora esta...”.

Os vizinhos riam. E vendiam como nunca. Normalmente, à custa de fraudar fisco, previdência, ministério do trabalho, empregados, o escambau, a loja, agora obstruída, vendia barato. E monopolizava a freguesia. Chamou um molambento que assistia a tudo um pouco mais afastado. “Chefe, se você der um jeito de empurrar a bosta deste carro mais pra frente, eu te dou cinqüenta paus”. “É pra já, meu patrão”. “Ei... Precisa mais não. O rabecão e o reboque estão chegando. Graças a Deus... Como se não bastasse o prejuízo, ainda ter de pagar mais cinqüenta para... Só o que faltava... Além de queda coice”.

Acharam um documento com endereço e telefone. Alguém tirou o celular do bolso do paletó e avisou pra família. O filho mais velho custou a ser encontrado.

Era só um reboque. Não havia rabecão. E um reboque que nada tinha a ver com aquilo. Fora chamado, obviamente, para rebocar. Mas uma Brasília velha que estava estacionada defronte a uma garagem. O comerciante procurou o molambento. Havia desaparecido. “É, hoje não é o meu dia...”

 “Parece qui ainda num tá morto não. Acabei de ouvir um ronco saindo de dentro dele”. “Esse aí? Se num tiver morto, o barrão lá de casa vai dar cria: cem bacurim. Ainda hoje”. “Negada, respeitem o morto. Mandem comprar pelo menos uma vela...” “Tu paga? Diz logo que eu trago até caixão de primeira”. “Eu não. Num tenho um puto nem pra tomar um café... E mesmo que tivesse, quéqueutem a ver com isso?” “Então num conversa merda, pô”.

O filho foi encontrado. Vinha puto da vida. “Porra. Logo hoje que eu ia comer aquela boazuda....  Primeiro vai pro IML. Depois, sobra só pra mim. Quanto será qui vão cobrar? Tava fazendo uma poupança pra dar entrada num carro mais novo... Tem este Gol dele. Mas tá alienado. Faltam mais de vinte prestações. Agora vou ter de gastar com essa bosta. Se for mais de duzentos eu num pago, não. Deixo fedendo lá. Quero ver se num dão um fim”.

Tráfego mais congestionado do que as veias do pescoço do falecido. Buzinaço intolerável. E o barulho ainda mais infernal pelos impropérios dos motoristas. “Este cara tá é bebo. Ou então se fazendo de morto pra melhor passar. Deve ter faltado gasolina e ele tá com medo de ser multado. Melhor chamar a polícia”. “É isso aí, cumpade. Quem não pode com o pote... Quéquiqué um liso tendo carro se nem o gás pode pagar? Tem mesmo é qui ser multado e preso. Pra aprender.”

“O cara tá morto mesmo, patrão. Já faz mais de meia hora. Fui um dos primeiros a chegar. Sei reconhecer um morto”. “Então esta cidade é qui tá uma porcaria. Aliás, é o país todo. Por qui diabo é qui este sujeito vem morrer justo no meu caminho?  Faltando só quinze minutos pra fechar a oficina. Se chegar em casa sem esta televisão a mulher me mata. Ontem a Nazaré descobriu que a Cláudia está no hospital. A Isabel se assustou e a Maria do Carmo se ofereceu pra levar ela lá. E hoje é o último capítulo. Vai dizer qui eu me atrasei de propósito. Qui implico com as novelas dela... Ora, se até eu tô puto porque vou perder. Pode ser qui amanhã eles reprisem... Mesmo assim vai encher o meu saco...”

O maior incômodo da morte é o corpo. Primeiro é o fedor. Esta conversa de que defunto só começa a feder vinte e quatro horas depois, é balela. Depois há um ritual. Tão inútil quanto chato e complicado. E caro. Assim como nas residências existem as fossas para destinação dos dejetos, deveria também haver um dispositivo para se dar um fim, menos complicado, nos corpos. Da maneira mais higiênica e simples possível. As casas do futuro decerto serão assim.

A esposa vociferava: “Aqui num quero não. Nem morto. Quer dizer, morto já tá. Aí é qui num quero mesmo. Que levem direto pra enterrar logo...”

  “Também num quero qui tragam ele pra cá, não mãe. Tenho medo. E as minhas amigas ficaram de vir estudar hoje à noite. O vestibular tá em cima... Podendo ter morrido naquele dia que passou mal e foi pra UTI. Coisa chata. Defunto dentro de casa. E eu tenho de estudar...”