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O Zumbido
( Raymundo Silveira BRA )

 

 

 

 

“Cansei! Acabou meu tempo: Não vou mais esperar. Faz quarenta e cinco anos. Quando eu tinha cinco, era o dia do meu aniversário, as festas de fim de ano, o papai Noel. Aos doze, queria completar quinze. Então, sonhava a namorada, que nunca veio; o trem que não passava, e se passasse, não ia saber  aonde ir. E o tempo, que  passava mesmo. Jamais soube  a razão. Mesmo assim, persistia nessa atitude, cada vez mais  sofrida. Evidentemente, muitas   coisas acabaram acontecendo. Nenhuma delas justificava  aquela ânsia. Pelo contrário. Cada realização me enchia de tédio,  como o ‘Prisioneiro de Chillon’, que,  ao saber-se  livre, perguntava o que fazer com tão enfadonha liberdade. Atingi, assim, a idade madura.  O tempo corria cada vez mais depressa. Apesar disso, minha espera prosseguia. Já então choviam cheganças, embora alguns sonhos  desabassem em  tempestades. Vieram filhos, melhores salários, automóveis, casas de campo e de praia, dinheiro no banco... E cabelos brancos. Depois de um certo tempo a vida  se aquietou e comecei a arquivar os outros anseios. O que nunca acabou foi o vício de esperar. Sempre racional, tinha emoções, certamente, mas não permitia que elas prevalecessem. Então, o que me  angustia, depois de meio século, não é  bem a sensação da expectativa. Mas tentar entender por que não posso passar sem ela. Por isso decidi: Mesmo sem compreender o motivo, deixarei de contar com o que  o acaso trará. Ou o que  não virá...  Esgotou-se o meu estoque de porvires. O excesso de vida me fez cansar de viver. O tempo se encarregou de eliminar meu tempo. Prefiro existir, apenas. O ócio do nada esperar, vale mais que  o ônus desta ilusão inútil,  chamada por  alguns  de  esperança”.

Assim pensava, apiedado de si mesmo, ali largado, vestido de tédio por dentro e por fora, num domingo inútil...

O zumbido chegou de repente. Foi quase no apito final do  jogo.  Televisão e duas garrafas de cervejas. Depois se deitou. Era um chiado, um barulho de queda d’água. Ou de panela de pressão,  campainha...  Um esvoaçar de borboletas. 

Achou que um inseto tinha penetrado no ouvido esquerdo. Pôs álcool e cutucou com cotonetes. Escarafunchou  até começar a sangrar. O rumor continuou. Persistente, constante... O hino do Inferno, executado por centenas de tocadores, reunidos num concerto diabólico. Uma orquestra de pernilongos...

Não dormiu um segundo. Mal raiou o dia, vestiu-se e saiu caminhando à toa pelas ruas. Procurava alguém que pudesse ajudá-lo: um médico, um enfermeiro, um farmacêutico... Qualquer pessoa. Contanto que fizesse cessar aquele maldito ruído.

Naquele dia começou a sua saga. Primeiro, consultou os especialistas da cidade. Acabou nos melhores do Sul do país. Nenhum alívio. Aquele barulho  escarnecia da sua aflição,  como os torturadores do seu Salvador... Ali já não cabiam filosofias, sofrimentos morais. Tudo se simplificara. 

E afinal, o único “médico” que  ajudou um pouco, chamava-se mesmo doutor Tempo. Nem por causa de um tratamento eficaz. Somente pela única circunstância que faz  todas as pessoas tolerarem o seu destino: o hábito. Misericordioso remédio, que torna todos os homens pacientes, acomodados, resignados...