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Macabra Realidade
( Raymundo Silveira BRA )
Mesmo muito emocionado, fiz questão de segurar uma das alças do caixão. Jamais tinha acontecido. Já havia comparecido a enterros. Mas só enquanto criança, quando a vida parece eterna. E a morte dos outros é encarada como um acontecimento tão remoto da nossa, quanto Andrômeda da Terra. Naquele dia, contudo, embora o Sol brilhasse intensamente, a manhã estava negra. Um negrume retinto a ponto de obscurecer qualquer réstia de luz que ainda pudesse brotar do meu coração atormentado. Parecia não restar nenhum fiapo de esperança que ainda mantivesse aceso algum vestígio de vontade de viver. Era a primeira vez, na vida, que ia tomar parte ativa num sepultamento.
Minhas relações com o falecido jamais foram harmônicas. É curiosa a antipatia que geralmente nutrimos por aquelas pessoas de quem mais estamos próximos. Parece que a vida em comum não apenas banaliza e brutaliza as relações, como as torna indiferentes. De todas as pessoas de quem me aproximei, a mais angustiante e difícil convivência foi com ele. Exatamente porque se tratava daquela com quem mais convivi. Entretanto, durante os últimos anos, tínhamos nos aproximado.
Não o vi expirar. Mas mesmo que tivesse visto, saberia como ia me sentir. É muito triste ver morrer até aqueles indivíduos cujo sangue não possui uma única gota do nosso. Por isso, estou certo de que sei o que iria experimentar. Tenho convicção absoluta de que seria como perder um pedaço de mim. Talvez eu próprio como um todo. Não obstante, existe uma diferença enorme entre ver alguém suspirar pela última vez e enterrar o seu corpo depois.
Não existe nada que alivie a angústia de participar do sepultamento de um ente querido. Absolutamente nada! Orações, bênçãos, missas de corpo presente, sermões que falam na esperança de uma vida eterna, água benta, flores, coroas, velas, catafalcos, valiuns, drogas e álcoois. Nada funciona! Nada alivia! As rezas, as missas, as bênçãos e os sermões soam como despedida. Despedida de nunca mais! As flores, as coroas, as velas, os catafalcos, servem apenas como símbolos de adeuses. Adeuses de nunca mais! Os valiuns, as drogas e os álcoois alimentam ainda mais a angústia e mal o seu efeito começa a se dissipar, se exacerba o desespero. Desespero do nunca mais!
Entretanto, a mais cruel, a mais terrível, a mais horrenda experiência vem um pouco mais tarde. É quando se trata de entregar aos vermes, a fim de que eles se banqueteiem, aquela carne da nossa carne. Foi nesta hora que quis ver o morto pela última vez. Até então, ainda não tinha tido coragem para tanto. Não permiti que abrissem o féretro na minha presença. No cemitério, porém, uma força estranha me impeliu. Uma espécie de compulsão que ainda não havia sentido. O coveiro ainda vacilou. A firmeza com que o encarei, não lhe deu chance alguma de reagir. Ao abrir-se o caixão, desfaleci: o defunto era eu.
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