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Renascer
( Raymundo Silveira BRA )

 

 

“Disse-lhe Nicodemos: ‘Como pode nascer um homem já velho? Pode tornar a entrar no ventre de sua mãe, para nascer segunda vez?’.”

João 3, 4-5

 

“Sinto uma coisa muito esquisita, que jamais li em livro algum, nem ouvi de ninguém. Alguns fatos que me aconteceram no passado parecem não ter acontecido ainda. Sei, todavia, que irão fatalmente ocorrer mais cedo ou mais tarde. Não se trata do fenômeno “já visto”, há muito tempo já reconhecido pelos psiquiatras. Ali, os “eventos”, na verdade, nunca existiram. Mas as pessoas interpretam como se já os tivessem experimentado. Comigo é diferente: tudo o que imagino, se deu realmente. Entendo, porém, que ainda estão por vir”.

“O que mais me aflige: somente as ocorrências funestas ainda não sucederam. Matei um homem aos trinta e dois anos. Quer dizer, matarei... Porque já matei... Nada supostamente bom do meu passado, se “repetirá”. Uso este verbo, à falta de outro que expresse o que sinto. Com efeito, nada se repetirá porque ainda não se concretizou. Melhor dizendo, se concretizou, sim. Não tenho a menor dúvida disso. Ao mesmo tempo, estou convicto de que está por acontecer. Minha tarefa consiste em inverter esses porvires. Ou seja, me empenharei para que só se realizem, no futuro, os fatos agradáveis... Do passado...”.

Cinqüenta e oito anos. Maturidade aparentemente tranqüila. Subitamente, noite pelo dia. Copo de leite pelo de uísque. Terno e gravata por jeans. A Mercedes preta trocada por um esportivo Lamborghini vermelho-sangue e uma moto envenenada. Mulheres. Nos plurais dos plurais. Idade do lobo, diziam. Conflitos, brigas, separação. Namoradas cada vez mais jovens: meninas, garotas de programa, tudo. Num dia enfermo, parou de trabalhar. A natureza enlouqueceu. O sol a pino brilhava à meia noite. Um clarão na madrugada aniquilava as trevas.

Pouco mais tarde, costumes de adolescentes e de crianças: “vício solitário”, companhia de jovens, rebeldia... Brincos, tranças rastafari, piercing... Hábitos cada vez mais regressivos: peladas, pipas, dominós. Sorvetes na casquinha, picolés, bombons...

A alvorada prevalecia sobre o ocaso. E uma tempestade de tardanças estava preste a desabar sobre o exército do tempo. Mas afundou num mar de fantasias. E sobreveio um vendaval de esperanças. Varrendo, pra bem longe, os desenganos.

Há meses estava vivendo com a filha mais velha e o marido. Numa incerta noite brincava com meninas.  “Eu sou pobre, pobre, pobre / Demavé, mavé, mavé...” Ontem, faltavam vinte para o almoço. Um dos netos, rapaz de 19, foi chamá-lo pra almoçar. Encontrou-o em posição fetal.

“Essa é a minha história. Hoje vou nascer”.

 

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