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Assédio Maldito

( Raymundo Silveira BRA )

 

 

 

Alimentou o cão abandonado e faminto. Um vira-lata preto, magro, feio, mal cuidado. Que depois, o seguiu. Era diferente dos outros cães. Acompanhou-o para todos os lugares, mas não demonstrava qualquer indício de simpatia. Pelo contrário, parecia estar no seu encalço só para perseguir: ladrava e ameaçava morder. Quanto mais o fustigava, menos o animal desistia. Às vezes sumia. O benfeitor acreditava estar só. Subitamente, o bicho voltava a aparecer.

 

A princípio se irritou, mas decidiu ser flexível: melhor ter paciência do que maltratar um animal. “Com o tempo ia se afastar”, pensou. Vã expectativa. Não o alimentou mais. O bicho sumiu e logo retornou. Saciado. Como se tivesse comido as sobras de um banquete.

 

À noite, ao chegar em casa, deixou-o fora. “Enfim, me safei”. Durante a madrugada, porém, a imagem do bicho lhe tirou o sono. Sentia-se acuado. Não conseguia fixar o pensamento em outra coisa. Ao lado, a mulher ressonava. Isso o irritava ainda mais. Precisava conversar com alguém. Falar daquela obsessão que o impedia de dormir, mesmo na ausência do animal. Despertou cansado e ainda se sentindo perseguido. Afinal, se resignou, como se tudo não tivesse passado de pesadelo. Ao abrir a porta, o cachorro estava lá.

 

Tentou um pontapé. O animal se esquivou e ele chutou o ar recebendo de volta uma distensão num músculo da coxa. Não perdeu tempo com mezinhas. Tinha de chegar ao trabalho e já passava da hora. O cachorro já o esperava à entrada da empresa e o acompanhou ao relógio de ponto e, depois, à sua sala. O Chefe veio inspecionar. O cão era dele? Teve de contar tudo. Dois zeladores o expulsaram a pauladas.

 

Ao meio dia saiu pra almoçar, mesmo sem ter vontade de comer. Sentiu-se aliviado ao constatar que o bicho havia sumido. A fome de liberdade fora saciada. E então, voltou o apetite. Ao se sentar à mesa do restaurante, reapareceu, como se tivesse se materializado à sua frente. A partir do nada. “Senhor, não é permitida a entrada de animais neste estabelecimento. Infelizmente, é impossível servir, a menos que...”. “Não posso. Este cão não é meu. Segue-me à toa e sem estímulo algum”. “Infelizmente, senhor, é norma da casa. Tem de compreender”. A mesma sorte o esperava em qualquer outro restaurante. Voltou ao trabalho sem comer. Mandou o contínuo comprar sanduíche de queijo. Enquanto comia, o cão surgiu à porta. O chefe voltou a advertir: “Esta é a segunda vez. Não haverá terceira”.

 

Houve, terceira, sim. O que não houve foi quarta. Era a manhã chuvosa de um dia moribundo, quando foi despedido. Agora, sempre que chegava em casa o cachorro também entrava. Não havia como evitar. A menos que as portas permanecessem eternamente fechadas. Teve de dormir trancado. Preferia o calor, àquela infelicidade ambulante. A porta do quarto era arranhada, quase sem intervalos, durante todas as noites. Procurou clínicas de veterinária... A “carrocinha”... Recorreu à Associação Protetora de Animais. Nenhuma ajuda. Então, decidiu agir.

 

Preparou bolas de sebo contendo estricnina. O vira-lata mirava o veneno e a seguir desviava o olhar para ele. Os dentes arreganhados, como se sorrisse. Certa vez, seguiu para um terreno baldio e descarregou o revólver na cabeça... Ou no que julgava ser a cabeça. Nenhuma bala o atingiu. Com o tempo, a mulher não tolerou mais aquilo e também o despediu através de um processo de divórcio. Foi morar sozinho num conjugado: quarto e sala.

 

Desde então, jamais gozou um segundo de sossego. A pobreza material e a miséria do espírito o torturavam. Sentimentos como autopiedade, compulsões, complexos de culpa, consciência de que levava uma vida amargurada, a desesperança, enfim, ocasionaram, não só o afastamento das pessoas, como também repugnância a todas elas. Logo, passou a sentir aversão até a si próprio.

 

Perdeu tudo: trabalho, família, amigos, dinheiro, saúde. Fez o que pôde para se livrar, mas até hoje o cão ainda anda no encalço da sua infelicidade. Arriscou um lance desesperado neste jogo desigual: ofereceu tudo o que lhe restara, para recompensar a quem o enforcasse. Até hoje ninguém conseguiu...