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UMBELINA VIU O UMBIGO DO VOVÔ

( Aristoteles Rodrigues BRA )

 

 

 

 

... e ficou espantada, mas não pelo umbigo, porque ela não era tão tola assim, mas pelo que havia abaixo do umbigo. Nunca vira aquilo, embora imaginasse o que fosse, porque já tinha visto o do Rex, andando atrás das cadelas, na rua, e o do burro, que puxava a carroça do Zé Alvim, mas o do avô era diferente dos deles todos.

Afastou-se da porta do banheiro; se ele trancara a porta, era porque não queria que ninguém olhasse, mesmo que fosse pelo enorme buraco da fechadura, que era o que ela estava fazendo. Foi para seu quarto.

O avô não conseguiu saber, no primeiro momento, quem estava do outro lado da porta, mas sentiu aquele calafrio conhecido, no umbigo. Tudo lá embaixo ficou quente, e ele sentiu vontade, muita vontade. Há muito tempo não tinha sentido tão forte.

Houve uma segunda vez, no dia seguinte, porque a curiosidade de Umbelina havia ficado muito grande, e foi na mesma hora do banho do avô; a vovó fora à padaria, comprar pão e leite, e a chave não estava na fechadura, o que permitia uma visão bem clara do banheiro.

O umbigo estava lá e o resto também, que estava ainda maior do que ontem, e de repente o avô desaparecera, a porta desapareceu e o umbigo do vovô estava bem na frente dela. 

O avô puxou-a para dentro do banheiro; sabia que não era preciso força, e tirou-lhe a roupa com vagar, com prazer. Ela já não era tão criança e aquilo era muito bom.

Umbelina não gostou da dor que sentiu abaixo do umbigo, que deduziu que viesse de debaixo do umbigo do avô; não que tivesse sido uma dor muito forte, mas assustava, porque era nova e porque continuou, pelo resto do dia e porque, mesmo no dia seguinte, permaneceu uma ardência lá, uma ardência que era nova. 

O avô gostou muito do que aconteceu e que continuou acontecendo, por quantos anos, mesmo? Devem ter sido muitos, em quase todos os dias, com o cheiro bom e fresco da neta e a cumplicidade da avó.

Umbelina gostou do que ficou acontecendo, porque o avô era bondoso com ela; além daquilo tudo, ele ainda lhe dava dinheiro para ir ao cinema, para comprar doce e pipocas, para comprar umas roupas novas.

A mãe ficou contente, porque Umbelina estava sempre com o avô, o normal era a família ser assim, todo mundo conversando e se entendendo, ninguém brigando, era o que ela vivia falando para todas as freguesas das roupas que vendia.

Entretanto, o que é normal, o que é normalidade psicológica? Cada um de nós é uma individualidade psíquica, compreendida e limitada por suas características morfológicas e biológicas, em contínuo evolver sobre as bases de caráter hereditário e biológico. É certo que o que hoje é anormal ou patológico, não necessariamente o foi, ao longo da história do homem; lembrando que Foucault credita à sociedade a determinação do que é lícito e ilícito, saudável e doente, a Bíblia descreve Lot a relacionar-se sexualmente com suas filhas, e o conhecimento disso não causa horror aos cristãos, possivelmente por se localizar no passado.

Se a descrição se remetesse a um incesto que viesse a acontecer ou mesmo que estivesse acontecendo hoje, talvez fosse diferente; a não ser que aconteça em grupos primitivos, que ainda não tenham ultrapassado o estágio de horda, esse fato, por envolver pulsões extremamente primitivas, é prática que elicia forte descarga libidinosa, a qual fica fora de qualquer controle possível, o que costuma gerar emoções e resultados imprevisíveis. 

A proibição desse tipo de relação, estabelecida pelas sociedades, geralmente através de suas igrejas, demonstrou-se sábia, ao longo da vida, pois obrigou aos que desejavam exercê-la publicamente a submeter-se a ritos exaustivos, cuja principal função sempre foi a de reduzir a quase nada os ímpetos sexuais dos diretamente envolvidos na questão, e, ainda que estes pudessem estar subjacentes à relação, nunca poderiam estar explicitados, como veio ocorrendo, entre Umbelina e seu avô.

Ela não chegou a conhecer esse romper dos diques emocionais, porque era muito jovem quando tudo aconteceu, e sua capacidade de análise era limitada; seu avô, ao contrário, viveu cada átomo da loucura que nele se instalou, ainda que não o percebesse e ainda que pudesse ter negado, até para si mesmo, qualquer desdobramento negativo de suas secretas e prazerosas atividades incestuosas.

E, embora a tragédia que rodeia esse tipo de transgressão seja sempre previamente anunciada, a força louca da emoção louca somente apareceu quando Umbelina arranjou um namoradinho.

O avô entrou no quarto dela, com o facão de matar porco na mão, e enfiou-lhe no corpo. Foi uma, foram duas, foram cem. A faca cortou e rasgou com a facilidade com que facas de matar porco cortam e rasgam.

Umbelina primeiro se assustou, em seguida teve uma mão decepada, um dos olhos vazados, os dois seios dilacerados; seu monte de Vênus, sua vagina, seu fígado, um rim, os dois pulmões e o coração foram perfurados repetidamente, e depois ela morreu. O avô fugiu.

O avô apareceu, e na cadeia ficou aguardando o julgamento. Depois de condenado, na cadeia ficou aguardando a liberdade.

Um dia, o avô foi solto e passou a freqüentar a igreja pentecostal, cujo missionário o havia abordado dentro da cadeia. No ônibus, todos os dias, sentava-se, muito gordo, com a enorme bíblia sobre as pernas e parecia um avô. Ele ia de casa para a igreja, da igreja para casa,  e agora morava sem a esposa e sem a filha.

Talvez elas também tivessem morrido, ou talvez ele tivesse morrido, não se sabia direito. Mas agora pertencia a Deus, e o diabo não tinha mais poder sobre ele.

 

 

Aristoteles Rodrigues - tote.rodrigues@terra.com.br  
JUIZ DE FORA - MG
. Psicólogo