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O HOMEM QUE AMAVA AS AVEZINHAS

( Clevane Pessoa de Araújo Lopes BRA )

 

 

 

 

 

O homem que cuidava dos pássaros está em um hospital público, não andar psiquiátrico. É professor, poeta, cronista, em qualquer ordem. Até noutro dia, cuidava de pássaros que caíam feridos num comitê político onde ia todas as tardes, escrever textos para ganhar uns míseros trocados do candidato a alguma coisa, por certo, não a cuidador do povo.

             Esse homem que respira seu próprio prana de poesia pura, estava endividado. Tomava dinheiro emprestado, a juros, daqui, para pagar ali. Na verdade, queria saldar a dívida com seu editor. Escreveu suas experiências sobre estudante que foi preso-embora não torturado-na Ditadura Militar. Era o ano de 2004, dirão mais tarde e fazia quarenta anos que o golpe militar acontecera.

           Depois da noite de autógrafos, saía diariamente com sua pesada pasta e ia tentar vender seus livros.

           Muitas vezes, gastava mais que se tivesse ficado em casa: era preciso requiaitr uma mesa onde se encontrasse, pedir uma cerveja ao menos e voltar para casa de táxi.

             O homem que gostava de pássaros, chegou a cuidar de um beija-flor. Um dia chegou e a pequena ave havia se recuperado o suficiente para ir embora. Estava acostumado a registros de perda. Apenas pegou uma cadernetinha surrada em sua mente brilhante e anotou mais uma.

               A bem-amada, também gostava de pássaros e estava criando um pardal, avezinha da rua que não quer saber de aproximações.mas caíra em seu oitão ainda implume e acabara por aceitar os cuidados. Depois de crescidinho, ficou meio estragado:não andava em bandos, chegava sozinho à procura de pão. E entrava em casa, para acordá-la cedinho, indignado porque ela dormia até mais tarde... Ela havia pendurado um bebedouro desses de flores de plástico. Lavava-o bem e trocava a água, para evitar fungos que fizessem mal ao beija-flor vindo de uma árvore em frente.

             O homem que cuidava de pássaros andou meio enciumado,querendo até virar beija-flor, até que ela, meiga/mente, lhe disse que colocara no bichinho o nome dele. Viu naquilo o desejo oculto de cuidar dele, o homem, o que por ora era impossível...

            A bem-amada ia viajar e ele sentiu-se sem chão. Se fosse ave, poderia voar, mas não! Então começou a tomar Lexotan, esse remédio enganador, com pinga pura. Queria, com isso, que todos acabassem por saber aquilo que não andava a revelar:que devia muito. Contou a ela, por telefone, que ficara muito humilhado ao tentar tomar novos empréstimos e iam lhe mostrando, na telinha do computador, que ele(ainda)devia aqui e ali...

             Ela tentava animá-lo: Hoje, todos que são inadimplentes, não precisam se envergonhar. A culpa é do governo...

               O homem que sabia como ninguém cuidar de passarinhos, havia votado nesse Governo e a decepção agravava sua saúde mental.

                 Ao receber recados de que a mistura fatal-Pinga&lexotan –estava acontecendo, lixando seu esôfago, destruindo o ácido estomacal, obnubilando sua mente embora nunca embotando sua sensibilidade, a amada, sentindo-se agora mal-amada, quando viu que o amor não valia tanto assim nesses casos, avisou-o: ”Pare, senão vc vai ficar de língua de fora”.

             Ele queria morrer e a conquistara com a vida de seus olhos e a mágica de seu sorriso... Como ela conviveria com esse contraste, alguém riri um riso tão risonho e em dado momento, procurar o auto-extermínio?

               O homem que sabia dar vida a pássaros doentes, não sabe voar, não sabe como sarar porque não morreu e as dívidas continuam. Professor, poeta, cronista, contista, fez da palavra uma bandeira, mas suas palavras literárias não conseguem pagar suas dívidas ou convencer quem quer que seja a lhe emprestar dinheiro para viver com dignidade.

              O Governo lhe deve uma idenização pelas experiências durante a Ditadura. Ele tomou as primeiras providências.Pensa nelas enquanto está internado. Entre agudos e crônicos, todos doentes brasileiros que devem algo a alguém. Os donos do Poder terão conhecimento disso?

              Um contista, cronista, diretor de revista literária, cronista, articulista, namorante, poeta-em qualquer ordem-está nesse minuto internado em um hospital público. Na ala de psiquiatria. Junto a outros inadimplentes. Faz parte dos que não resistem a pressões de dívidas monetárias. Só o Brasil resiste, capengando. Alguns homens, não.

                   Sentado na cama ou andando aqui e ali, o homem que nunca deixou as avezinhas sem ajuda, acende seus olhinhos ornitólogos e se alegra:há muito material importante ali, para escrever. Quando sair da internação, já que não lhe autorizaram portar lápis ou caneta, passíveis de se transformarem em armas de auto-extermínio... Um escriba sem suas ferramentas!

              Isso enche de esperança o coração da mal-bem-amada, quando fala com ele ao telefone. Se ele reunir interesse suficiente para escrever um livro novo, talvez a Vida lhe estenda os braços. E ele volte a salvar bichinhos alados. Então, no ninho desse coração orvalhado, quebram-se dois ovos. De dentro para fora, e as avezitas começam a piar chamando o homem

para cuidá-las...

 

Clevane Pessoa de Saraújo

Psicóloga Clínica e Empresarial

Poetisa, contista, ilustradora

casasazuis@yahoo.com.br

Belo Horizonte, MG-Brasil