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O violinista e o mar

( João de Abreu Borges BRA )

 

 

 

 

Por que as nuvens não alteraram seu curso, quando ele ergueu os olhos em busca de uma respiração profunda? Por que o nível da areia permanecia o mesmo, enquanto seus pés construíam castelos de vento no movimento de cada passo?

O fato é que as ondas, que traziam para a terra o som do horizonte, agora também levavam ondas musicais, quando retornavam aos braços líquidos do infinito.

Algas ergueram-se à terra, pássaros flutuavam pela imaginação e se permitiam aos dedos do violinista. Tentáculos de polvos contraíam-se a cada toque do arco.

O olho esquerdo, que transfigurava o mundo em seus acordes bachianos, aninhava pupilas recém chegadas do mundo das ostras.

O olho direito ordenhava a fúria dos terremotos, perdoava a injúria dos temporais, acalmava a ira dos tubarões e desenhava um sol em cada cascalho de traineira que passava recheada com os frutos do mar que se refletiam na pele seca e morena dos pescadores.

Justificando mesmo o fato da Terra ser redonda e girar em torno de si própria, várias vezes antes de completar seu círculo de veneração ao Sol, o violino criava um som redemoinho que desestabilizava todo e qualquer conceito úmido de espaço e tempo.

Não fosse o violinista cego, e mesmo assim conseguir ver pelos olhos do mar...

Não soubesse o mar falar, e mesmo assim sugerir palavras pela boca daqueles que o aprenderam a escutar...

 

 

 

 

João de Abreu Borges

Rio de Janeiro

Músico e poeta

CPF: 403 416 157 – 49