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três de Maria

( Maria Petronilho POR )

 

 

 

Preclara Nudez

 

Olhaste-me tão docemente

que me senti mergulhar

no lago do teu olhar

Fui átomo feliz de ti

noutra dimensão me achei

as chaves do amor busquei

Vaguei como peixe áureo

no teu límpido esplendor

De repente escureceu

e o teu olhar se cerrou

e a manhã me cegou

na lágrima que desceu

 

Perdi-me em ti... não sou eu

mas Eva que desobedeceu

além do permitido ousou

adentrar... e o teu olhar cobiçou.

 

E se agora estiolo

na fria aridez do solo

em celso orgulho evoco

ter vencido o preconceito

ter ousado o inaudito

... em  júbilo me sublimo!

 

 

 

Sem Apelo nem Agravo

 

No meu solitário refúgio

se bem que iluminado

pela tua memória

pela tua ausência

deixo pousar a cabeça

no colo da desesperança

 

Suspendo o ar que inspiro

não me traga o desvario

num átomo do teu cheiro

 

Represo os passos

entrecerro os dedos

não ousem eles soltar

o ímpeto de te alcançar

de pedir ou de aceitar

de com os teus se enlear.

 

Afinco-me remoendo

o absurdo não-querer querendo

 

deixo o meu sangue ferver

deixo o meu sangue secar

deixo-me evaporar

se

etérea  celebrar

a aura em teu redor

 

 

 

Canção do amor e da ira calada

Que a melancolia
não me leve a sombra
de árvore viva
em alma de primavera

Que não oiça
a maré alta que soa...
Quero ficar quieta
a sonhá-la, da duna...

Que a duna do meu peito
permaneça adormecida
que não a toque a chama
nem a ventania

Que os meus olhos ousem
uma vez na vida
olhar o sol de frente
e depois fique cega

E cega, deixarei passar sem ver
toda a lonjura onde não fui nem irei
todo o ouro, todo o azul.

E, ainda que não vendo,
vereis vós dos meus tormentos
fazerem-se vulcões meus olhos
que foram ensombrados lagos

Deixai-me ficar quieta
no meu terraço florido
com meus pássaros cantando

Levai o vosso sossego
do meu ser angustiado

Que o sol me seque o pranto
e o ar o leve escondido...

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