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Muito alcança quem não cansa

( Maria Petronilho POR )

 

 

 

Bem que Faustino saltitava, alternando as pernas!

Bem se apoiava na pontinha das garras!

Qual quê!

O sol ardia no céu, como se Deus nessa tarde tivesse acordado com vontade de sol frito em frigideira azul cobalto.

O pobre, de pupilas encolhidas num finíssimo losango, desatinava.

O sangue lá dentro fervia.

A cabeça em triângulo rodava... Rodava por dentro, de febre e fadiga e rodava por fora em busca de sombra.

Cada grão de areia era uma agulha em brasa que lhe atravessava a escama e feria a ténue membrana da pata.

Desatou numa correria, sem saber para onde ia... mas ao menos tentava remediar qualquer coisa de tanta que o incomodava.

Seguiu numa carreira, ziguezagueando como louco, pensando:

- Se me virem julgam que é da cerveja... Ah, uma cerveja gelada, borbulhante e loira a escorrer pela goela...!

Não pensem que um réptil tem miolos de galinha... ora essa!

Faustino era um poço de inteligência!

- ...Ah, um poço!

Um poço de água rasa, fresquinha, muitos limos à tona; girinos na chocadeira...

Faustino muito corria, mas onde o que sonhava?!

Longe, rubro em meio ao amarelo fulgente do solo, vislumbrou um livro caído ao desleixo, a lombada soerguida, as páginas desalinhadas, como se as palavras coscuvilhassem entre elas.

- Ena! ... Uma sombra!

Faustino deslizou como um raio, de cabeça perdida, sem pensar que podia

aninhar-se, ali escondida, uma armadilha... Pensava era na frescura, no

alívio que teria, no descanso das pernas musculosas de tanto balanço que nem bailarino em palco!

Ele, um lagarto a bailar num palco!

... Riu-se muito o Faustino, que era pequeno e esguio, curioso e ladino...

em todo o buraco metia o focinho!

Por isso já fora ao teatro, à ópera, à escola...

Pensam que um lagarto não pensa?! - Engano vosso!

Entretanto atingiu o refúgio... estendeu-se ao comprido... suspirou de alívio!

Ofegando, deixou que a temperatura se equilibrasse um pouco, depois virou-se e leu alto:

"O senhor presidente decretou que a açude será inaugurado pelas sete da

tarde".

Virando a cabeça para a sua sombra no chão, Faustino consultou o relógio de

sol:

- ora essa! Seis e meia!

Ao longe, o ruído da banda feriu-lhe a sensibilidade das membranas

auditivas.

As rodas dos carros todo o terreno abalaram o chão e Adolfo estremeceu

- Ai que o livro descai! ... Gritou aflito.

Cada vez mais perto, o tumulto.

Já distinguia sobre as caixas abertas dos camiões, uns rolos imensos com

mangueiras enroladas.

Os carros dos bombeiros, as limusinas com tejadilhos abertos, e humanos

gordos, vermelhuscos, embonecados em trajes de brancos linhos.

Adolfo pensou que era hora de erguer as patas dianteiras ao céu:

- Adeus mundo, que tão breve foste e depois de me assares me comes e bebes!

... mas pareceu-lhe fora do tempo verbal a oração.

- Espera lá! Eu posso estar tisnado mas assado... nem por isso!

- E quanto a ser engolido... Deus me livre, que arrepio!

 

Lembrou-se logo da falecida que vira desaparecer esperneando nas mandíbulas

de uma cobra safada... Que horror!

Deu um salto, e correu, correu, correu...

- Para onde irei? Aonde haverá um penhasco, uma árvore, aumm... pum!

- Um poste!... ainda discerniu, antes de cair de pantanas.

- Ai! Ui! ... Ai a minha cabecinha, como dói!

Mas o barulho alto lembrou-o da inundação que em breve se desataria daquela

embrulhada toda...

- Pernas, para que vos quero?!

Tomou balanço, abraçou o mais que pôde o largo tronco e subiu, subiu, subiu

subiu....

Viu as horas, pelo relógio da sombra... Da sombra do poste no chão, ora

essa... Não estão pensando que o Faustino ia despencar do poste só para

saber o tempo, pois não?!

Soou algo como chuuuuuuaaaaaaaaaaaaaaaaaa

Os tambores rufaram:

- Zabum! Zabum! Zabum!

Os grotescos humanos, alinhados e de branco, subiram ao palco armado na

caixa de outro camião... e o falatório enjoativo, monótono, as vénias à

direita e à esquerda...

Que nem na torreira suas excelências esqueciam as "boas maneiras"...

Faustino fez uma careta.

A água entretanto jorrava...

Lá de cima, Faustino alcançou então a descoberta:

O seu grande deserto, onde se esfalfava e quase se escalfava não passava de

uma regueira aberta entre dois campos de soja.

 

... E então, só então, agradeceu lá do alto ao Altíssimo as pernas e a

esperteza!