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SAPATO DE LONA VERDE
( Diogo Costa BRA )
O braço do sol apóia-se no chão.
A luz empoeirada atravessa o furo do cartaz. Entre tantas modelos: ela, a Francesinha. Cartaz publicitário. Primeiro trabalho. Está ao lado de um anjo com um furo no peito. Proposital; “assim, ilumina meus cachos”, disse o javali. Louro de água-oxigenada. Queria ser bonito como Miles Davis, mas, seus caninos projetados para fora lhe fazem o cartão-de-visita.
Passou na beira da estrada fuçando. Com os olhos negros de gelatina, viu o cartaz; propaganda de Cinzano. Nunca bebeu. Gosta de coca-cola-com-café e arrebite; está no fundo do posto de gasolina, engordando uma gota de suor na testa.
Entre os olhos gelatinosos, a gota está lá, engordando; e a Francesinha acompanha com olhos verde-mar; “e se cair, engole”.
- Não...
- A próxima, engole!
O javali estica o pescoço. Remexe a cintura como se escutasse um Cool Jazz. Apunhala. Estoura uma das varizes e diz valer a pena; cadencia o corpo nos punhos do baterista, e a gota de suor despenca no início do trompete; não paralisa no ar, não é filme americano. Explode rápido, no canto da boca. O leopardo saliva. É um leopardo diante uma poça no deserto. Afasta os cabelos vermelhos dela; cabelos pintados com tinta de papel crepom; cor-fogo-menina; e o leopardo lambe sua poça lentamente.
- Sabe Francesinha, estou aqui pensando.
- Você, pensando? Tá bem, passa a guimba.
- Eu penso sim, agora escuta. Eles não sabem.
- Quem?
- Eles.
- Tá certo, estou louca.
- Não. Está indo bem. Já eles, não sabem.
- Não sabem o quê, seu gordo?
- Seu filho, não é?
- Deixe ele em paz!
- Gosta de você porque ganha comida. Um dia, te come.
Nua, na beira da cama, a Francesinha deixa um suspiro na metade. Esconde o rosto nos cabelos; uma cortina rubro-negra, manchada de vermelho. Apóia as mãos nos joelhos como nunca houvesse escutado um palavrão; os seios estão soltos, pendurados, brilhando no filete de sol.
- O que foi garota? Ainda não terminei, volta pra cá!
Ele alisa um revólver cromado. “Um gordo cretino com tetas”, pensou ela. O traço de sol reflete na arma; o espelho cromado ofusca seus olhos. Ela não percebe os caninos, mas estão lá, revelando a espécie.
- Você é muito gostosa, garota. E os cães fazem isso. É instinto. Um dia teu filho...
- Cala a boca seu escroto!
- Eu?
- Sim, você, um gordo cretino. De tanto fumar maconha e beber, criou tetas!
- É mesmo... E posso chupá-las, como atriz pornô. Quer ver?
- Cretino!
- Está bem. Continue. Está chegando lá. Agora escute essa. Ontem, estive num encontro. Colegas do ginásio. Porcos-rosas, domésticos, da Índia, fuçando pedras no calçadão. Um deles me fez queixa. O filho havia sido revistado por um policial. Achou um absurdo. Pela lógica dele, garotos com tênis de 500 reais não deveriam ser revistados. Eu me irritei com a estória. Lhe dei flores.
- Flores? O que isso tem a ver, seu gordo?
- Selvagem, garota, selvagem. Tenho 36 cromossomos. Já um doméstico tem 38. Baixo calibre. Pra compensar, uso uma 44 cromada.
- E daí? Tem menos dois cromossomos. É mais estúpido ainda.
- Pode ser, mas sei que as flores existem pra gente não feder. Fedemos igualmente; alguns mais, outros menos. Mas fedemos. Me irritei com a história. Pai e filho no caixão, rodeado de flores. Flores pra não feder.
- Que história estúpida!
- Continue, disse ele, levando a arma até as costas da francesinha. Com o rosto iluminado, os cachos dourados não brilham, são falsos, opacos, e num sorriso os caninos escapolem da boca.
- E aqui, gosta do cano? Fica quieta senão atiro. Está gostoso? Quando giro, gosta?
- Não... seu porco!
- Isso mesmo. É isso que sou. Um tiro no cartaz, hoje você, amanhã coca-cola; agora, vê se engole!
Uma nódoa escorre, fumaça de óleo diesel, resto de fritada de toucinho na panela; um licor salgado nas nervuras da boca; “isso, engole”; o licor não desce, gruda como sujeira de lâmpadas fluorescentes; ele aperta o nariz dela, um alicate de dedos; força uma imagem de ralo de pia, aberto, e a gordura de asfalto quente desce na garganta. Ele apunhala mais uma vez. A
Francesinha recebe o peso. Balança sem vontade. Olha para o cantinho entre os tacos. Esse é o seu lugar: um cantinho entre os tacos do chão. Iluminado de suor, o javali caminha em duas patas; empurra em duas patas; segue em direção ao bar alisando as tetas, caídas, como se escutasse uma sessão final de Cool Jazz. Ali, andam sem saber das fendas escondidas, apenas caminham, sobre; empurrando um ou outro até o fundo, cada vez mais.
A Francesinha abre a gaveta do criado-mudo.
Encontra uma caixa de fósforos com um pássaro azul pintado; “bird of paradise”, Charlie Parker; lembra das músicas que escutava em casa, antes de dormir, onde alguém por debaixo do lençol dedilhava sobre o colchão até o seu corpo.
Ela acende um cigarro. Experimenta, com os dedos, a superfície do lençol sem tirar os olhos de uma caixa de papelão; se perde na lembrança. Um raio lhe passa na coluna. Um arrepio assustado; porque se assustaria? Não era o mesmo todos os dias sobre seu corpo?
Depois de três anos, a brasa está num laranja-triste; seu corpo é um cigarro fino, sugado até porejar sangue. Mãe de um grão. A seguia. Brincava de detetive pra não se sentir rejeitado.
O vulto era a certeza. Tateava um poste, murchava a barriga, e o sapato de lona verde apontava. Um sapato simples, da cor dos olhos da mãe; verde azeitona; e ela pensa em engolir o filho; não é uma pérola, é um pequeno grão de areia. Talvez pudesse fugir antes do javali voltar. Sua imagem, presa à porta no cartaz Cinzano, descola e se projeta; consegue passar uma perna, depois a outra, mas o anjo fica. Sem ela, não tem força nas mãos e larga a taça. Ela o ampara; carrega seu corpo e corre até a rodovia.
O vento alimenta a brasa. Esquenta e fica rosado; nariz de-gato-fujão correndo na linha da estrada. Quem sabe poderia voar, como antes, quando saiu de casa para não escutar “bird of paradise”; para não dividir o choro de um filho-irmão; “sangue do sangue, seu e dele, quase-irmão”.
Não sente os pés. Não sente o asfalto quente. Apenas corre na direção de um trovão niquelado; um ronco V-8; ela fecha os olhos mar-de-esmeralda; agora metálicos, da cor de um Mustang em última marcha, e voa, na altura do pára-choque.
O mar gira canos, tubos de cristal verde; dá pra ver o fundo na beira da praia; tubos girando, metade areia, metade cristal; “tudo isso é meu”. Quando pequena, pensava que tudo foi feito só pra ela, bastava fechar os olhos e abrir; “só eu vejo, se fechá-los acabou-se o mundo”. De olhos fechados poderia sentir frio, ouvir vozes, mas não; depois do trovão niquelado, reconhece o filho com sua última percepção de mundo: um grão e um cigarro, tragados.
“Varrer não adianta”, disse o dono do quarto; um magro urubu. Bicou entre as fendas e encontrou muita carne. Engolia o que pôde. Arrancava nacos, e quase sem mastigar, ia deixando passar grandes pedaços. Empinava o bico pra cima e engolia bolos de carne. Sem alguma distinção, engolia; até se engasgar num sapato. Estava preso a um pé humano. Bicou por dentro e fez de chamariz: amarrou numa cruz de metal e fincou à beira da estrada.
Não é filme. É um javali girando o botão engordurado do rádio, onde sintoniza uma música qualquer, e com um palito entre os dentes, cospe um cartucho vazio de bala, e faz o sinal da cruz, olhando um sapato de criança.