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A VOLTA DOS BONS MOÇOS
Sidnei Luiz Speckart
Roberto Carlos se justificava dizendo fazer certas coisas pois tinha que “manter a sua fama de mau”. Alguns anos antes James Dean personificava o rebelde sem causa nas telas. Ainda no cinema, Marlon Brando cruzou os limites do desafio a bordo de sua Harley Davidson. Seja na música, seja no cinema, a cultura ocidental de massa criou, a partir do pós-guerra, o mito de que bom era o fora da lei, o mau, o transgressor. Por “n” vezes vimos o herói personificado no pistoleiro, no atirador que, a partir da alça de mira da sua bazuca, resolvia todos os males do mundo.
Desde a escola primária aprendemos que bom era o centro-avante, isto é, o atacante, o que marcava gol, o que vencia a defesa do adversário. Pobre de mim, não tirava farinha. Era goleiro. E foi sempre assim, enquanto na missa se ouvia que o reino dos céus estava reservado aos brandos, o reino da terra cabia aos atacantes, aos pistoleiros e, principalmente aos que cultuavam a sua fama de mau.
Pobres dos seguidores da lei. Pobres do que estudavam e tiravam notas boas. A esses a turba já se tinha assegurado uma série de nomes pejorativos que iam desde o puxa-saco até a tradução da sigla CDF. Aos bons moços sempre se impôs o ostracismo. A fama cabia aos que pichavam muros, aos que fumavam, drogavam-se, bebiam e batiam de carro, aos que engravidavam moçoilas desavisadas. Até o sucesso com as garotas era garantido a quem atingia certo grau de masculinidade, passando por um desses ritos de passagem.
Nessa ordem mundial, cumprir a lei não tinha graça. Afinal, que aventura tinha em voltar pra casa, sóbrio? Que graça tinha tratar a moça com elegância? Quem nunca tinha manuseado uma lata de tinta ou enrolado um baseado era “palha”, “otário”. Os porres, as trombadas, se aquela droga era mais forte que a outra, se esse carro tinha seis ou oito “canecos”, ah... isso sim. Isso era um tema nas aventuras da nossa juventude urbana.
Saber do triste fim do menino João, espicaçado pelas ruas da cidade maravilhosa, me fez refletir sobre os valores validados pela juventude. Fez-me pensar sobre como valorizamos, cá no ocidente, aquele que nos parece mais valente e, por isso, mais homem, mais monstro.
A valorização de certos comportamentos chegou a um trágico limite. Basta de ridicularizar os meninos e meninas que estudam. Basta de chacotear aqueles que chegam no horário e cumprem as regras da escola. Basta de chamar de dedo duro aqueles que denunciam quem picha o muro. Basta de expormos de chamarmos de “otário” quem cumpre a lei. Pois é na escola que ser forja o caráter do gênio e do assassino, é tudo uma questão de escolha.
Um pós-adolescente não rouba um carro brandindo uma pistola se não fosse “valorizado” por isso. Nossa sociedade é quem deve escolher a que valorizar. O comportamento bandido ou o comportamento do homem pacífico.
Está na hora de valorizarmos os CDFs. Está na hora de termos em mais alto grau quem cumpre a lei e quem a faz ser cumprida. Está mais do que na hora de nos sentirmos bem com muros limpos. Já passou da hora de sermos condescendentes com pequenas infrações e pequenos delitos.
Pais e professores devem sim conversar com filhos e alunos sobre esse tema e devem juntos escolher a realidade que querem para o seu presente e para o seu futuro. Pais e professores devem ser rigorosos em fazer cumprir as leis da escola, pois é naquele momento que o menino e a menina vão aprender que existe punição quando não se cumpre. Ou não.
O autor é publicitário e professor