| www.domist.net/por artigos |
CAMPING IV – OUTUBRO
Urda Alice Klueger
Pelo que entendo de mundo e de sensibilidade, a Primavera veio, afinal. Pena que veio tão tarde, pois perdi o florescimento dos ipês e tantas emoções lindas – mas outras há, e aqui neste camping, hoje, depois de 24 horas estudando sério livro de teoria, achei que já era tempo de deixar de lado a teoria e deixar fluir a emoção!
Como escreviam os poetas do século XIX, sinto vontade de falar sobre sabiás, esses pássaros canoros tão gordinhos, pelo menos umas quatro vezes o tamanho que têm as correcas que encantaram a minha infância, ou os pardais das quais o Brasil importou cestos cheios desde Paris, quando decidiu, lá na Primeira República, que o nosso país seria uma França tropical. Pois a demora na chegada da Primavera não me permitiu a emoção de ver a nidificação e a postura dos sabiás, neste ano – dou-me conta, agora, da caçada em que já estão, por entre as folhas de grama, a catar feixes de vigorosas minhocas rebeladas, para levar aos seus ninhos onde, com certeza, já há filhotes. Afinal, é outubro, tempo adiantado de Primavera, e embora seu começo não tenha existido para mim, os sabiás dele não esqueceram.
Também os sapos lembraram de tudo certinho, e lá no charco onde eles vivem, há centenas, milhares, diria até muitos milhares de girinos pretos que formam como que manchas negras na água represada desde o rio, de um rio que é inacessível para eles, tamanho o emaranhado de plantas que fecha a boca daquele pequeno brejo. Fico pensando: de que se alimentam os girinos, naquele charco cheio de plantas aquáticas? Haverá invisíveis algas, como que um plâncton, a viver ali sem que a gente possa ver, e serão elas quem farão os girinozinhos pretos crescerem e se tornarem sapinhos delicados, que parecerão enfeites de plástico para se botar em cabelos de meninas? Ou eles são seres parecidos comigo, que se alimentam de raiozinhos de sol e de gotinhas de orvalho? Quais serão os inimigos naturais dos girinos? Um pouco deles se escapará até o rio e será devorada pelos compridos peixes escuros? Quem sabe os próprios sabiás, ou outros pássaros caçadores e/ou pescadores, como as garças, aparecerão por ali e transformarão tantos deles em refeições para seus bebês que esperam nos ninhos? Não sei, penso que devo aprender um pouco mais de Biologia – por enquanto, o que se me afigura é que, se tantos girinos assim se salvarem e se tornarem grandes sapos, vamos ter uma inflação de sapos, e na estação seguinte não haverá mosquitos suficientes para que todos possam se safar da fome. A sábia Natureza tudo prevê – acho que, quando chegar em casa, vou ligar para o meu amigo biólogo Rafa, para saber o que acontecerá com tamanha quantidade de girinos. Sei é que as mães e os pais deles, na noite que passou, estavam tão felizes com a tão grande quantidade de rebentos, que encheram a noite do camping de uma grande sinfonia a muitas vozes.
O fato é que, enquanto eu parei e não vivi porque a magia da vida se fora, a Natureza seguiu seu curso como vem fazendo há bilhões de anos, e nos ninhos há bicos aflitos esperando por comida, e nos charcos os girinos são tantos que parecem manchas escuras.
Minh`alma, agora, nesta perspectiva de que a Primavera se mantenha plena, também se harmoniza, se ilumina e se enche de sons, como o de muitos cantos de aves, ou, quem sabe, como o som de um órgão solitário e invisível, que ouvi, um dia, sozinha, em Saint-Germain-de-Près, e assim harmoniosa ela fica muito encantada, como se fosse a Branca-de-Neve das historinhas infantis. Tamanha é a harmonia que posso muito mais do que normalmente: dei-me ao luxo, inclusive, de contar a quantidade de cachos de flores que cresceu e se inclinou sobre o berço dos girinos, e são 11 grandes cachos de florinhas que vão desde o roxo ao branco, passando por todas as nuances do rosa e do lilás – bem como estou me dando ao luxo de lembrar aquele dia 20 de Outubro de 1999, aquele misterioso dia que eu lembro mas que tanta gente lembra também (embora os outros já não lembrem a data), quando, no palco de um teatro, o Passarinho mais mágico de todos, como se fosse um Cupido grego, retesou seu arco e mandou a mais afiada das sua flechas diretamente para me atravessar o coração.
Ah! Passarinho, você sabe que flechas assim já não saem mais, só a morte para retirá-las, como a gente faz com os peixes quando lhes quer tirar anzóis que se lhes enfiaram nas guelras!
Meu Passarinho-Cupido, obrigada por estes anos de tanto encanto e tanta luz! Como você sabe, dou-me por satisfeita com um raiozinho de sol, com uma gotinha de orvalho – minha vida é encantada como a daqueles girinos com seu charco sombreado por cachos de flores coloridas! Só lhe peço que não me impeça mais de viver a Primavera na sua plenitude!
Escrito em Blumenau, em 08 de Outubro de 2006 (39 anos depois do assassinato do Che), mas rememorando o 20 de Outubro de 1999.
Urda Alice Klueger - Escritora