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AH...

Vera Abi Saber

 

 

 

         Não sei se foi o calor. Não sei. Bateu forte a saudade. Envolveu-me violenta, exigente.

         Saudade de um cheiro cheiroso.  De cozinha; de tarde.    

         Bolo.  Café.  Leite. 

         Barulho de louça.

         Cheiro de infância.

         Ah, o bolo da tarde!  Fofinho, quentinho e tão cheiroso.  Mal dava tempo de lutar pela maior fatia. 

         Tantas crianças.

          Cheiro de terra, suor, xixi... e depois do lanche só sobrava o cheiro da manteiga na mão mal lavada.

         Cheiro de infância.

         A sensação é tão forte que escuto os barulhos do quintal.  Quintal grande, árvores, pássaros, gatos molengas pelo telhado, latido dos cachorros e gritaria das crianças. 

         São tantas.

         Ouço as vozes...  Mais uma briga?

          - “Estou de mal, me dá o dedinho. E de mal prá toda a vida.”

          E aí, de repente, briga esquecida : - “Vamos ficar ‘de bem’?”  “Me dá o dedão”.

        Voltei lá muitos anos depois e o quintal não era tão grande assim. Das árvores, só uma resistiu às “melhorias na casa”.

          Aninho-me no banco pronta para mergulhar mais fundo nos meus devaneios,  mas um som de buzina, forte, urgente, me sacode, me arranca dos meus nove anos e violentamente me coloca na direção do carro.

          Farol verde. Ruído de motor.

          Engato a primeira e me arrasto atrás da fila imensa de carros.  Os olhos ainda parados, o coração na boca. Lá vou eu.

          Cheiro de escapamento.

          Que saudade...