Leonardo De Moraes |
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conto
OS LÁBIOS
JUNTOS,
NOVAMENTE
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Leonardo De
Moraes |
Se seus pés fossem um pouco
mais rápidos, poderia
alcançá-lo. O salto, a idade
e o peso das ancas porém
atrapalhavam a cadência da
pequena corrida. Lá estava
ela, com quarenta e oito
anos desesperada atrás de um
taxi cab; mas não um
qualquer e sim o que estava
levando João de perto de
seus olhos. Recusava-se a
permitir que mais trinta
anos se passassem para poder,
em outro congresso de
medicina, em outra cidade
norte-americana,
reencontrá-lo divorciado...
Inacreditável que tivesse
conseguido reconhecê-lo e, a
bem da verdade, só conseguiu
quando o nome dele foi
anunciado pelo chefe de
cerimônias. "and now we
would like to introduce Mr.
João Isaac Kirshbaum, a
brazilian cirurgian that
lives here in Boston for the
last...". Incrível o
formigamento que se abateu
sobre seu rosto, justo na
superfície quente das
bochechas, com a maquiagem
impedindo a transpiração. Ao
ouvir o nome, sentada que
estava na terceira fileira
com a equipe médica do
Hospital do Coração, pensou
que teria um AVC ou então
uma elevação abrupta de
pressão... mas seria mesmo o
João... aquele senhor de
cabelos grisalhos e barba
idem, levemente barrigudinho...
olhos doces e arredondados...
sim, sim, claro que era ele...
A constatação porém
precisava ser devidamente
chorada no banheiro feminino,
e Raquel levantou-se e não
ouviu uma só palavra do que
João teria a dizer sobre
incisões diagonais sem
necessidade de sutura.
João e Raquel haviam sido
amigos durante toda uma
infância em São Paulo. João
morando na Rua Pará e ela na
Avenida Angélica, seus pais
freqüentando a mesma
sinagoga e dividindo os
mesmos laços de amizade e
sangue em Higienópolis.
Brincaram, cresceram e
estudaram juntos no colégio.
João dois anos na frente e
Raquel faltando às aulas de
música para admirá-lo
durante a aula de ginástica.
E o primeiro beijo foi num
desses dias, com a grade de
metal separando a quadra de
basquete do pátio interno do
colégio. Ela de saia plisada
de um lado, ele suado do
outro. Os lábios juntos.
Namoraram escondidos.
Famílias judias não gostam
muito de relacionamentos
imprevistos. E quer saber...
a aprovação retiraria o
tempero que tanto gostavam e
a liberdade de se
encontrarem livremente
dizendo-se apenas bons
amigos.
Mas com os anos e a pressão
familiar pelos estudos, à
época do vestibular o
contato diminuiu e foi
quando João tanto estudou
que entrou em uma ótima
faculdade de medicina, só
que em Boston. Toda a
família mudou-se junto e
também por outros motivos.
Raquel chorou. Chorou muito
e muito. E depois que João
partiu não chorou mais.
Dedicou-se aos estudos e
também optou por medicina. A
morte do pai, porém,
atrapalhou qualquer plano de
encontrar João no exterior,
e meninas judias ficam perto
de suas famílias. E meninas
judias casam-se cedo. E a
vida tomou seu rumo.
Mas trinta anos se passaram,
uma viuvez precoce da parte
dela, um divórcio recente da
parte dele... a mulher não
era judia e nunca foi aceita
devidamente - ao menos isso
era o que lhe informava a
Wanda, dos Schmidt de Nova
York. Somente agora, com os
filhos crescidos, ambos
estavam disponíveis
novamente.
Todas essas lembranças,
porém, impediram que Raquel
voltasse a tempo de ver o
final da palestra de João e,
quando foi procurá-lo, soube
que ele já havia se dirigido
para a porta de saída do
hotel, em busca de um táxi.
Então pôs-se a correr dentro
do saguão, e também já na
calçada, indo em direção à
Avenida. Pouco se importou
quando pisou em uma poça e
molhou a barra do vestido.
Já não lhe restava mais
qualquer dignidade na
aparência, depois de hora e
meia de choro compulsivo.
"Stop this car, please..."
Como o motorista escutou o
inglês abafado de Raquel e
porque a atendeu não se sabe.
O que se sabe é que o carro
parou. E que João logo a
reconheceu... e também
chorou um choro de trinta
anos.
Não tardou e veio um segundo
primeiro beijo, emoldurado
pela janela traseira do táxi.
Ela de saia molhada de um
lado, ele sentado do outro.
Os lábios juntos, novamente.
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