Miriam Midnight |
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horror
O
HIPOCONDRIACO
L’IPOCONDRIACO
trad. Eliude Santana
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Miriam
Midnight |
…E o pesadelo se transforma
em realidade. É’ o título de
um filme de série B dos anos
70. Eu o vi, cerca dois anos
atras. Me lembro que era uma
noite de verão, igual a esta,
uma daquelas noites quentes
em que a única coisa de que
temos vontade de fazer é
sair pra beber com os amigos
e se divertir um pouco.
Voltei pra casa às três da
noite com uma sede incrível
e nem um pouco de sono. Me
dirigi à cozinha, peguei uma
cerveja fresca da geladeira
e liguei a televisão.
Passava um filme que parecia
estar começando naquele
momento. Entendi logo que se
tratava de filme de horror,
um daqueles dos anos setenta,
filmados com pouca grana, em
que o audio è péssimo e o
diálogo pior ainda. No
entanto adorava.
Tinha uma vasta coleção de
VHS. Todos os filmes de
horror de série B, a maioria
quase desconhecida, cavados
nas lojas mais derrubadas da
Europa. A esse ponto jà
tinha uma coleção de grande
respeito: cerca 400 títulos.
Sair à procura de novos, era
jà um hobby e um dos maiores
prazeres da minha miserável
vida de estudante. Se não me
engano, foi através dessa
coleção que conheci Carl.
Ele também viu o filme
naquela noite, mas não se
impressionou muito.
Acho que a maior parte
desses filmes é grotesca e,
geralmente, cômico
involuntariamente. Algumas
vezes aconteceu de ver
alguns que, por algum
motivo, me fizeram sentir
angústia. Nem todos, quero
dizer. O bom dos filmes de
horror è que são muito
relativos. Ás vezes è
terrificante pra uns e
inócuos pra outros ou até
mesmo ridículos.
Por exemplo, eu tenho um
sacro terror às mantilhas
religiosas. Não as suporto.
Lembro como se fosse ontem,
uma coisa que aconteceu
quando eu tinha uns cinco
anos.
Estava passando as férias de
verão na casa de campo de
meus avós. Jogava bola com
meu irmão e meus amigos.
André, conhecendo o meu
fraco, pra se gabar com os
outros, pegou uma mantilha
que encontrou dentro do mato
e sacudiu na minha cara.
Dizer que tive uma crise
histérica, è pouco.
Gaguejando, implorei a ele
de parar, minhas pernas
tremiam sem que pudesse
controlà-las e comecei a
temer que dalì a pouco iria
fazer xixi nas calças.
Não obstante a humilhação e
as risadas das outras
crianças, não conseguia me
mover nem um centímetro. Era
como se uma força
sobrenatural me mantivesse
atacado à terra,
obrigando-me a olhar nos
olhos de uma criatura
alienígena. Como se
estivesse sentado ao bordo
de um poço e a qualquer
momento poderia cair dentro.
Tenho certeza que muitos
achariam que era exagero meu
e que beirava ao ridículo.
Por isso é que digo que o
medo às vezes é uma coisa
extremamente relativa.
Voltando a “e o pesadelo se
tornou realidade…” era um
filme como tantos outros,
porém me deixou, de qualquer
forma, com um estranho
sentimento de angústia no
estômago. A história era a
de um jornalista que uma
manha, se dirigiu ao
aeroporto da sua cidade, pra
escrever um artigo sobre um
avião que parecia envolvido
em um estranho mistério.
Á bordo, se encontra um
cientista que hà muitos anos
não se tinha notícias. O
homem havia passado a maior
parte do tempo em uma ilha
perdida do pacífico, pra
fazer pesquisas e
experiências que na
realidade se sabia pouco ou
nada. Agora, ao improviso, o
avião que o transportava,
estava pra aterrissar, sem
ter dado nenhum pré-aviso.
Os últimos contatos com a
base de contrôle pareciam
muito estranhos. O piloto
havia falado de uma epidemia
não muito bem identificada,
que teria manifestada,
improvisamente, entre os
tripulantes… depois, mais
nada.
Prevendo um “furo”
excepcional, o jornalista se
precipitou ao aeroporto pra
descobrir o que teria
acontecido.Um grupo de
curiosos e de repórter
circundavam o avião,
impedindo de fazer fotos.
Finalmente a porta se abaixa.
Ficou bloqueado entre as
pessoas e não conseguia se
aproximar. Foi uma sorte ter
chegado atrasado, porque,
assim que os passageiros
desceram, se deu conta que
eles não tinham mais nada de
humano. Eram seres sedentos
de sangue que se jogavam
sobre as pessoas pra
matá-las e nutrirem-se das
suas carnes. Zumbì, em
poucas palavras.
Consegue fugir mas, em pouco
menos de um dia, toda a
população se transforma em
mortos que caminham. O
jornalista se dà conta de
ser um dos poucos
sobreviventes. Entende que,
não obstante todos os
esforços, não seria por
muito tempo. E’ só mesmo uma
questão de tempo e pegarão
ele também. Terrível. Tudo
que construiu com tanto
enfado, ter que terminar em
um modo tão absurdo. Não
tinha saida, nenhum lugar
que pudesse se esconder.
Mas eis que acorda em uma
poça de suor e se dà conta
que teve sómente um sonho.
Que alívio. Era um pesadelo.
Com grande felicidade se
dirigiu à cozinha pra tomar
café. Enquanto o prepara,
assobiando, toca o telefone.
Como toda manhã, o seu chefe
lhe informa sobre as
notícias do dia. A notícia è
a seguinte: um cientista do
qual há muito tempo não se
tinha notícias, està pra
aterrissar sem pré-aviso.
Existe muito falatório a
respeito. Era melhor correr
ao aeroporto pra saber de
que se trata.
Palido como um lençol, pega
a capa e sai. Enquanto corre
a toda velocidade pela
estrada, mantém um olhar de
quem se perdeu em profunda
ponderação.
E eu sei tudo sobre isso:
mas que porra! Não… imagina,
nao è possível, eu sei o que
é a vida. A vida são os três
ou quatro kilômetros que
você faz pra ir ao trabalho.
São os jantares, os
encontros, o sexo, as contas,
o casamento e os filhos,
talvez. A aposentadoria,
talvez. As férias. Nada de
demônios, nada de zumbí,
nada conspirações
alienígenas, nada triângulo
das bermudas. Besteiras pra
crianças analfabetas ou
dementes e certamente não
pra pessoas que estudaram
por uma vida e que tem todos
os parafusos no lugar.
Mas o avião parece aquele
mesmo, as mesmas pessoas, e
igualmente o aeroporto. E
ídem pra a porta que se
abaixa e… o pesadelo se
torna realidade. Enquanto
caminho angustiado pra
voltar pra casa, entre os
matos perto dos pinheiros,
iluminados pela luz da lua
cheia, me volta à mente
próprio aquele filme.
Me sinto em culpa por todas
as coisas que aconteceram
nesses últimos meses. Deixei
que se degenerassem sem ter
feito nada pra evitá-lo. Não
nego, porém, que sou eu que
vou sempre à procura das
situações mais absurdas que
jà me aconteceram. Deveria
pensar bem, antes de ir
viver com Carl. Sabia muito
bem que iria terminar na
cadeia ou dentro de qualquer
outro tipo de problemas
absurdos. O problema è que,
alguns meses atrás, não
tinha outra escolha. Ou
melhor, outra escolha tinha
e como.
Abandonar os estudos
universitários, abandonar a
faculdade que fingia
frequentar, apesar dos
esforços e sacrifícios dos
meus pais. Isso significaria
trabalho forçado e,
sinceramente, perder as três
festas de cada semana, as
saídas, as comilanças eram
coisas que não poderia
renunciar. Deveria fazer
durar tudo isso o mais
possível. O único problema è
que, visto o meu escarso
rendimento nos estudos, meus
pais estavam jà tirando o
cinturão e ainda mais, dada
a crise econômica, os
quebra-galhos que fazia me
rendiam sómente o bastante
pra comprar cigarros.
Um dia me telefona Carl, que
agora, além de ser meu amigo
era o meu “pusher” de
confiança. A grama melhor de
toda a região. Me disse que
havia encontrado um
apartamento legal a poucos
passos da faculdade. O lugar
è muito lindo. Três quartos,
uma grande cozinha, uma sala
enorme onde podemos fazer
festas. O único problema è o
aluguel. Não se trata de uma
cifra monstruosa mas, è
claro que sózinho não
poderia arcar, por isso me
pediu pra ir viver com ele.
A idéia parece boa. Primeiro,
isso significaria fumar
grátis. Segundo, entrar no
seu fantástico grupo de
amizade feminina. Ele era
uma presa muito desejada
entre as universitárias. Era
considerado um personagem.
Além de ser muito atraente,
sabia se vestir, sabia como
se comportar. Não era o tipo
anônimo. Não estava nunca
muito dentro da moda nem
muito demodè. Sempre em
equilíbrio com a moda que
lhe fazia único e se
distinguia dos demais. De
família rica, havia viajado
muito, desde pequeno;
praticamente não existia
nenhum argumento que ele não
soubesse discutir. Era muito
crítico com respeito aos
professores e ao sistema
escolar. Dizia que tudo eram
noções estéreis e que não
seria nunca de utilidade. A
verdadeira escola era a rua.
A única a dar uma cultura
com todos os crismas. A
Universidade? Uma obrigação
imposta pelos pais… haveria
de pegar aquele bendito
canudo pra fazer-lhes parar
de encher o saco e depois
poderia finalmente, viver ao
seu modo.
Me enchia os olhos, isso è
verdade. Me sentia quase
lisonjeado pela sua oferta.
Entre todos os amigos mais
“em vista” escolheu logo eu.
Pra dizer a verdade,, de vez
em quando um grilo me
cantava na mente. E se
tivesse me escolhido porque
me considerava um tipo
inócuo, incapaz de
roubar-lhe os refletores?
Uma outra coisa nos ligava
além dos filmes de horror de
série B: as brincadeiras.
Adorávamos brincar, sem
limites.
Á universidade éramos bem
conhecidos por isso, e
muitos pensavam duas vezes
antes de pisar em nossos
calos, por medo. Todos
sabiam que éramos sempre nós
os culpados. Ninguém, porém,
nunca nos pegou em
flagrante, nenhuma
testemunha, nenhuma prova,
nenhuma acusação. Nos
tornamos uma especie de
lenda metropolitana.
Implorei aos meus pais pra
conceder-me um “empréstimo”
pra os primeiros meses de
aluguel… dizendo que o
apartamento era o mais perto
da faculdade e de manhã
poderia acordar mais tarde
pra frequentar as lições e,
além do mais, tendo a casa
há dois passos, poderia ter
mais tempo pra estudar e bla,
bla, bla… bla.
Acho que se possa pedir
qualquer coisa aos pais que,
o maior arrependimento que
têm, è o de não ter podido
estudar.
Os primeiros meses com Carl,
foram um verdadeiro idílio,
melhor de um casal. Nos
entendíamos beníssimo.
Tinhamos decorado o amplo
salão do nosso apartamento
como uma discoteca dos anos
70. Paetés e veludo vermelho
se desperdiçavam. Um mega
som com karaokê e tudo, e
Carl havia decorado uma das
paredes com umas estranhas
composições feitas com papel
manteiga. Pra dizer a
verdade, parecia mais o set
dos 1999Baseluna.
O vai-vai de gente era
permanente. Um contínuo vai
e vem a qualquer hora da
noite ou do dia. Graças a
Deus não tínhamos vizinhos
particularmente chatos.
Estávamos no andar térreo em
um mini condomínio de quatro
andares. No andar superior
habitava um casal de velhos
surdos, no terceiro, um
casal de “clandestinos”. Ele,
provavelmente jogador e ela,
modela… se viam
esporadicamente e não
enchiam o saco, nunca; eram
impedidos pelo fato de não
poder chamar muito à atenção.
Estou falando sómente de
alguns meses atrás e parece
que se passou uma vida. Me
pergunto, a esse ponto, se
periodos como aqueles serao
ainda tornados. Os problemas
começaram quatro meses
depois da nossa
transferência. O problema
principal, naturalmente, se
chamava dinheiro. Estávamos
todos os dois no vermelho e
ambas as nossas famílias jà
tinham se cansado de nos
fazer contínuos
“empréstimos” visto os
escarsos resultados nos
estudos. A solução seria
trabalhar meio turno, mas
depois, quem conseguiria
estudar?
Carl havia, além do mais,
começado a ter problemas com
seus “negócios”. A erva não
parecia estar mais na moda,
desde que apareceu uma nova
droga que, se não me engano,
era uma sorta de anestésico
usado em cavalos,
considerado muito trendy
pelos ginasianos. Dizia que
pra ele, usar coisas
químicas era moralmente
inaceitável, xingava toda
essas novas gerações que não
eram mais capaz de
drogar-se.
Precisava encontrar uma
solução urgente. Já havia
quase um mês que passávamos
a pão e água e se não
conseguíssemos pagar o
aluguel, aì então é que a
vaca vai pra o brejo.
As alternativas que se
apresentavam eram três: Ir
pra uma daquelas grutas de
refugiados que alguém
continuava a chamar de casa
do estudante. Voltar pra
casa com o rabo entre as
pernas e prometer à mãe e ao
pai uma vida de trabalho
duro na mineira. Ou então, a
melhor, encontrar uma
terceira pessoa disposta a
dividir o aluguel. Essa
última era, sem dúvidas, a
mais conveniente. Tratava-se
agora de encontrar o
escolhido. Operação difícil,
visto que deveria ser uma
pessoa com qualidades e não
uma qualquer. Além do mais,
Carl não queria
absolutamente uma moça em
casa. E isso jà se exucluia
uma grande fatia do ambiente
universitário. As moças
fariam filas, atraídas por
ele. Quem dera
encontrassemos uma com as
medidas de uma top model.
Talvez disposta a passar e
cozinhar, a passear dentro
de casa de sutiãn e calcinha
e fazer alguma limpeza de
vez em quando. O problema é
que um de nós dois (ou
talvez todos os dois)
poderia conseguir, mas aì
surgiria outros problemas. A
pessoa em questão deveria
ser uma pessoa elástica.
Elástica è o termo que veio
em mente a nós dois.
Elástica no sentido em que
deveria habituar-se aos
nossos ritmos, à musica até
as altas horas, ao contínuo
vai-e-vem de gente, ao fumo
etc.
Foi iniciada a seleção.
Depois do anúncio no mural,
os telefonemas começaram a
chegar. A maior parte era de
moças, naturalmente. Algumas
eram dispostas a tudo a fim
de obter o lugar. Rapazes,
pra dizer a verdade, bem
pouco. Além do mais, eram
uns azarados do primeiro ano
que não conheciam ainda a
nossa fama. Pra Carl, essa
categoria não interessava,
tinha medo que se deixassem
influenciar pelo nosso
estilo de vida e aprontassem
alguma... ou pior ainda,
poderiam se tornar
incontroláveis. Os poucos
que aceitaram de nos
encontrar pareciam ter
sempre alguma coisa errada:
ou muito assanhado, ou muito
vulgar, ou muito gordo, ou
muito sujo, limpo demais,
muito loiro, enfim, nao
tinha nem mesmo um que
agradasse. E enquanto o
critério da escolha se
tornava sempre mais rígido e
paradoxais, as nossas
risorsas, a esse ponto, eram
quase nada. Pessoalmente, eu
era de tal forma na merda
que teria aceitado o
primeiro disgraçado que se
apresentasse à porta, mesmo
se houvesse uma seringa
cheia de cocaina na mão. Não
estava com vontade de
começar uma discussão. Teria
mandado tudo pro ar.
Um dia recebi um telefonema
de minha mãe. Disse que o
filho de uma nossa parenta
longe (nunca ouvi o nome
antes), tinha acabado de se
formar e ganhou uma borsa de
estudos pra frequentar um
curso universitáario em
alguma coisa de ficção
científica como física
astro-nuclear ou coisa
parecida. O garotinho è uma
especie de CDF. Terminou o
cientifico com 16 anos mas
tem grandes problemas em se
socializar. Parece que è um
garoto particular, com uma
inteligência superior à
media. Tem tendência a se
isolar. Os pais são felizes
por ser assim tão
intelectualmente dotado, mas
têem medo de que ele se
torne como aqueles CDFs
paranóicos que passam a vida
toda a estudar, até que um
belo dia entra em tilt e se
encontram pelas ruas a
contar os carros que passam
e a delirar sobre o fim do
mundo.
Nós, ao invés, éramos tão
scarsos nos estudos quanto
sociáveis (as textuais
palavras de minha mãe) logo,
poderíamos ajudá-lo a
abrir-se um pouco e ele,
talvez, nos ajudasse nos
estudos. No fundo, se
tratava sómente de alguns
meses. O curso terminaria
logo. Nesse ínterim,
poderíamos procurar outra
pessoa, e além do mais, os
pais de Michele eram pessoas
muito ricas. No mínimo,
poderíamos pediar alguma
coisa pelo incômodo.
Tinha minhas dúvidas de como
Carl consideraria a coisa.
Achava que poderia responder
alguma coisa tipo: “sim,
certo que sim, agora tenho
de me fazer até de Baby
sitter pra uma espécie de
desvalido…” mas
provavelmente ele também
estava dentro da merda, mais
do que admitia, que aceitou
de bom grado dizendo que um
garoto de 16 anos, por ser
tão inteligente, não poderia
dar muito problema, pra ele
seria uma espécie de
distração. E depois, era de
família rica…
Estávamos esperando ele com
uma certa curiosidade. Carl
até vestiu um conjunto em
veludo azul marinho à Oscar
Wilde e se colocou em pose
na sua poltrona preferida.
Em torno ao salão reinava
uma confusão total. Um monte
de coisas inúteis, vestidos,
cuecas do dia anterior e
ainda dos outros anteriores,
depositados em cada canto da
sala. Se tratava de um
pequeno teste. Pra
completar, colocaram um cd
dos Slayer como fundo, um
daqueles que dà nos nervos
de qualquer um.
Michele me surpreendeu.
Certamente não era o tipo
que tinha imaginado. Talvez
porque tinha em mente um
estereótipo. Pensava de
encontrar em frente a mim um
garoto magro, cheio de
espinhas, com óculos fundo
de garrafa e meias de varias
cores. Ao invés, era um
rapaz alto. Demonstrava pelo
menos uns 20 anos, de
corporatura média, nenhuma
espina. Óculos, sim, mas não
fundo de garrafa. Em geral,
um tipo muito anônimo. O
olhar, porém, sim que era
estranho. Um olhar ausente
quando se dirigia a um de
nós dois, mas incrivelmente
alerta e penetrante assim
que posava em outra parte.
Notamos com satisfação que,
assim que viu as cuecas
sobre a poltrona, deixou
transparecer a cara de nojo.
Enquanto Carl nos servia de
beber, não consegui colher
nenhuma outra
particularidade que julgasse
de ser muito, muito
interessante. Quando se
sentou, o garoto afastou com
dois dedos, uma meia da
cadeira e logo depois, com
excepcional velocidade,
tirou do bolso um lencinho
de papel, um daqueles
embebidos em detergente. Se
esfregou as mãos com aquela
expressão grave de quem està
fazendo uma operação da
máxima importância. Que
divertido. Não via a hora de
contar a Carl. Mas a coisa
mais engraçada aconteceu
depois. Enquanto estava me
dirigindo à cozinha pra
pegar umas cervejas, percebi
que assim que meu amigo se
voltou pra acender um
cigarro, Michele limpou
velozmente a copo também.
- Bem Miki, a mãe do meu
amigo disse que você è uma
espécie de garoto prodígio…
- disse Carl.
Michele, batizado jà por
Miki, enrubeceu visivelmente.
- Não penso de ser um garoto
prodígio… eu terminei
sómente o ginásio com dois
anos de antecipação… minha
mãe disse que sou como uma
esponja, basta que veja uma
coisa por um pouco de tempo
e refaço-a imediatamente até
mesmo melhor. No mais, tenho
o dom particular da memória
fotográfica.
Carl me deu uma olhada
divertida.
- Ha, è? Memória
fotográfica? Interessante…
- Sim-continuou friamente o
garoto - é isso mesmo, tudo
que leio fica gravado na
mente como em um livro… é um
dom natural e acho que sou
muito sortudo por haver-lo.
Me tem ajudado enormemente
na escola - Carl riu
suficientemente.
- Micki falou dos seus
estudos. Ficamos muito
impressionados. É’ claro que
o garoto tinha mesmo algo
mais. Carl ficou
indubitavelmente fascinado e
tenho certeza de ter lido
alguma ponta de inveja nos
seus olhos.
- Claro que tinha sido
sempre considerado um garoto
brilhante e pleno de
argumentos, mas Miki… bem,
Miki ficou claro desde o
início que possuia algo que
poderia ser definido
especial.
- Vede - continuou Carl -
não te escondo que temos uma
certa urgência em dividir o
apartamento com alguém, dada
a nossa situação econômica.
- O fato è que a vida
universitária é um pouco
diferente, você é jóvem e
não queremos que se sinta
incomodado nem criar nenhum
problema pra você…
- Sim, eu li alguma coisa
sobre os jóvens na
universidade. Além do mais,
meu primo me fala muito
sobre isso - Miki insinuou
um sorriso malicioso - mas
por mim não tem problema.
Sou muito curioso da vida
que vocês fazem aqui, juro,
eu… eu me considero uma
pessoa muito elástica. Me
adapto muito facilmente a
tudo e procurarei não criar
problemas.
Elástica, pessoa elástica, a
palavra chave.
- Apesar de ter as minhas
pequenas manias como todos,
acho, não sou em absoluto
uma pessoa invasiva, eu…
Perguntei que tipo de mania
estava falando.
- Bem, tenho a mania da
higiene, só pra começar. Sou
muito escrupuloso na limpeza
de tudo aquilo que entro em
contato - olhou as mãos.
Carl riu - então isso pode
ser um problema - fez um
gesto com as mãos mostrando
a bagunça em torna à sala -
Não se pode dizer que somos
particularmente fanáticos
pela limpeza. Quanto à
higiene…
- Não tem importância. A mim
basta um pequeno espaço pra
gerenciar ao meu modo, não
interferirei nunca com a
parte de vocês. Mim basta um
espaço com uma mesinha e uma
cama. Eu me arranjo pra
organizar dentro dos meus
critérios.
- Bem, e quanto ao barulho?
Te incomoda? Porque nós
ouvimos música muito alto.
Algumas vezes até altas
horas e não agrada a todos.
Frequentemente fazemos
festas e…
- Não. Não me incomoda.
Tenho uma boa capacidade de
isolamento, como os gatos.
Quando devo fazer uma coisa
e me concentro, è difícil
que algo me disturbe.
Trocamos uma breve olhada de
afirmação. Carl lhe estendeu
a mão - Muito bem - disse -
A partir de hoje pode se
considerar um de nós.
Era o garoto mais silencioso
e tranquilo que jà tinha
conhecido. Estava sempre
calado no seu quarto, com um
livro na mão. Desse jeito o
deixávamos antes de sair de
casa e do mesmo jeito o
encontrávamos quendo
chegávamos. Apesar de
continuarmos com o nosso
estilo de vida barulhento e
bagunçado, não dava o menor
sinal de disturbio. Sempre
incrivelmente gentil, mesmo
se achava, pra dizer a
verdade, que muitas vezes
aquela calma era até um
pouco excessiva. Pensava que
fosse um tipo tranquilo
demais e o seu modo anormal
de observar as coisas
continuava a me incomodar.
- Não serà um daqueles
bonzinhos bonzinhos, calados,
calados, calmos calmos, e um
belo dia, quando menos se
espera, se desabotoam,
prendem uma foice, entram em
um restaurante e fazem um
desastre???
Carl riu - calado, não
entende nada… você e os seus
filmes. Serà que não vê??
Apesar do seu grande cérebro
è simplesmente um azarado.
Além do mais, tenho certeza
que é um medroso. Bastaria
uma de nossas brincadeiras
pra fazê-lo desandar no
choro. Aliàs, sabe, seria
bom fazermos uma com ele,
algum dia desses. Ainda não
lhe batizamos… era, porra…
temos uma reputação a
conservar!!
Sim, porém precisava
encontrar um ponto fragil.
Carl disse que ainda não
havíamos conseguido
individualizá-lo. Eu porém
jà tenho uma idéia.
A despeito de todas as
minhas previsões, Carl se
simpatizou com ele. Levava-o
sempre pelas ruas, lhe
tratava como um discípulo.
Era ele que lhe dizia como
se vestir, como se pentear,
o que ler, se quisesse fazer
parte da “nata privilegiada”.
Assim, Miki descobriu um
novo universo feito de beat
generation, Valerie Solamas
e Pop Art, Black Sabbath e
Alister Crowley.
Carl era pra ele uma espécie
de pigmalião, um guia
perfeito pra ter acesso ao
misterioso mundo post 20. De
qualquer forma, o meu caro
amigo estava mais que
consciente e o seu ego
derramava felicidade quando
o apresentava aos amigos,
como sendo o seu jóvem
protegido. Fiquei contente
por Miki ser como nós, mas
ao mesmo tempo, continuava
achando que tinha alguma
coisa de desafinado naquele
garoto. Alguma coisa que
Carl não se apercebeu. Não
saberia explicar com
palavras. Não era sómente
uma mania pela higiene.
Aquele maldito modo de
escrutar as pessoas e as
coisas começava a
irritar-me. Sei que existem
aquelas pessoas com o vício
de esquadrinhar a cada 5
minutos da cabeça aos pés,
deixando-te em um estado
desconcertante e alerta.
Aqueles que, improvisamente,
te fazem pensar: Oh, Deus!!!
Estou com as calças
manchadas e nem percebi; ou
então, "estou com um buraco
nas calças e està se vendo
tudo” e, como diz a regra,
você não tem a caragem de
abaixar os olhos naquela
direção porque seria ainda
mais embaraçante. Porém, o
seu modo de olhar de
observar as pessoas era
diferente. Havia um quê de
anormal, de obsessivo.
Fugidio, se deveria te olhar
na cara mas incrivelmente
penetrante quando observava
sem ser observado. E depois,
o surpreendi mais de uma vez
girando pela casa sem
acender a luz, enquanto
sussurrava entre si, frases
incompreensíveis.
As duas vezes que peguei ele
a “observar” Carl, cheguei
ao ponto de me perguntar se
por baixo não havia alguma
tendência estranha.
Aconteceu uma outra coisa
algum tempo depois, mais não
falei nada porque nao tinha
certeza que tivesse
acontecido mesmo. Digamos
que tenho 99% de certeza mas
acho uma coisa muito absurda.
Estava cochilando, em uma
daquelas situações noturnas
atormentadas em que não
conseguimos dormir. Dorme e
acorda umas vinte vezes e a
um certo ponto não se sabe
mais quando està acordado ou
dormindo. Deveria ser umas 4
da manhã. Estava completando
a enésima pirueta no colchao
quando ouvi um barulho às
minhas costas. Me voltei com
os olhos semi-abertos e a
mente completamente
entorpecida.
Na penumbra, me pareceu de
ter notado como um flash, a
figura de Miki. Estava em pé
no canto em fundo à sala,
semi-escondido pela cortina
e me observava em silêncio.
Naquele momento pensei que
fosse um sonho. Me girei
simplesmente da outra parte,
decidido a pegar no sono.
Mas no dia seguinte, com a
mente lucida, não tinha
tanta certeza de ter sómente
sonhado.
No último telefonema, minha
mãe me havia dito que o
garoto era hipocondríaco.
Naturalmente jà tinha
imaginado há tempo. O
primeiro grande indício: a
obsessão pelos lenços
higiênicos que levava
perenemente no bolso e com
os quais limpava tudo: das
cadeiras às maçanetas, dos
copos à mesa. Lavava as mãos
pelo menos 300 vezes ao dia.
Segundo: afirmava em
continuação de se “sentir
estranho”. Atribuiva a culpa
a um virus que não conseguia
vir fora e que o afligia
ciclicamente. Desde que o
conheci que tinha esse
virus, e visto que não tinha
morrido ainda, a coisa
parecia muito suspeita.
Falando com minha mãe, vim a
saber que Micki estava sendo
curado, em parte por esses
problemas. Sim, enfim, era
um hipocondríaco no
verdadeiro sentido da
palavra. Um hipocondríaco
patológico.
Uma manhã, estava se lavando
mais do normal. Em realidade
estava tendo o que se
poderia dizer uma crise
alérgica. Continuava a
espirrar e a se lamentar de
dores em toda parte. Pela
enésima vez, chingava e
praguejava por aquele
virus,, como chamava ele,
“aquele vírus” .. “Que
droga, estou de novo com
“aquele vírus”, não quer
saber de ir embora, não
passa nunca…
Lhe disse que na realidade
ele não tinha nenhum virus.
Era estressado porque
passava muito tempo sobre os
livros, não saia nunca…
deveria tentar se divertir
um pouco’.
Grande erro. Nunca diga a um
hipocondríaco que è coisa da
sua cabeça. Acho que os
gritos se ouviram no final
da rua.
Ele não era louco. Ele
estava documentado. Tinha
lido sobre todos os vírus
possíveis. Havia muitos. Eu
não poderia nem imaginar
quantos. E os governos de
todo o mundo continuavam a
produzir novos…. Que porra,
nuunca tinha ouvido falar de
armas biológicas? O que eu
sabia daquilo que tinham
botado no ar em todo o mundo.
Seria eu capaz, e assim
qualquer outra pessoa, de
dizer com certeza o que se
tramava nos laboratórios
secretos dos governos de
todo o mundo, a dano da
população? Daquilo que
estavam fazendo experiência?
Não ouvia nunca os
telejornais?
E aquela era sómente um
milésimo da verdade
escondida e… continuou assim
por bem meia hora.
Quando o vi assim tão
enraivado pela primeira vez,
fiquei literalmente de boca
aberta, sem poder referi uma
palavra.
Além do mais, o que poderia
dizer? O que poderia
argumentar, que prova que
possuia pra derrubar a sua
tese?
Parecia ter se acalmado.
Pediu desculpas, que
infelizmente não se sentia
bem, acontecia muito
frequente de se enraivar
facilmente. Me implorou de
não dizer nada a Carl. Não
queria passar como uma “má
pessoa”. Disse assim mesmo:
“Má pessoa”.
Durante o primeiro ano de
universidade, no curso de
história moderna, conhecemos
Sandra. Logo se tornou uma
das garotas mais “famosas”
da faculdade. Não tanto pela
sua beleza. Não era
particularmente bonita:
pouco seios, orelhas pra
fora, um tipo como outro
qualquer. Bastava que lhe
botasse em um grupo de
protesto em favor de alguma
classe de minoria pra vê-la
transformar-se em Xena, a
princesa guereira. Sempre a
primeira a tomar a palavra
durante os debates na
faculdade, nas ocupações,
nas greves. Quando não era
pela causa de maltratamento
de mulheres afganistas, era
pelos cães abandonados pelas
estradas ou crianças
chilenas ou insetos em via
de extinção do Kazakistan. A
lenda exige que tenha havido
alguma coisa entre ela e
Carl, mas que ele tenha sido
abandonado de um modo mal
visto, o que significa ter
sido jogada do carro em
movimento durante uma briga
violenta e por cima, ter
dado um pontapé nos ovos.
Sinceramente, nunca consegui
entender se essa história
fosse verdadeira ou falsa.
Quando tentei perguntar ao
diretamente interessado,
notei um certo nervosismo e
a resposta foi muito vaga.
Assim decidi não indagar
além. Continuo a me
perguntar por que Carl
decidiu convidá-la. Porém,
sei que a situação começou a
se degenerar, exatamente a
partir daquela noite.
Lembro deles como se fosse
ontem, apoiados à porta da
cozinha, negligenciados pela
turma de bebados que de vez
em quando invadia
barulhentamente o territorio
deles. Discutiam com um copo
de vinho na mão. Namoravam
como dois pombinhos. Quando
finalmente conseguiram
desvincular-se pra se unirem
aos outros convidados,
Sandra não parou nem um
minuto de elogiar Miki.
Continuava a repetir que em
toda a vida sua, nunca tinha
encontrado um rapaz assim
tão brilhante e tão
interessante. - Quero
absolutamente convidá-lo a
um dos meus jantares -
disse, passando
descuidadamente perto de
Carl. Hoje em dia è tão
difícil encontrar uma homem
que tenha alguma coisa de
realmente interessante pra
contar em um jantar…
Tinha pensado mais de uma
vez que o meu amigo
escondesse algum segredo que
no fundo lhe constrangia a
se sentir uma bosta e
consequentemente lhe
impulsionasse a se comportar
como um idiota.
Naquela noite ele ficou
particularmente retado.
Esperava isso. Na sua cabeça
egocêntrica e mal resolvida,
Miki tinha lhe humilhado
diante dos seus amigos, no
seu território.
Por isso, quase que quebro o
joelho, batendo na quina da
mesinha de sala enquanto
tentava de tirar o braço de
Carl que apertava o pescoço
dele. Não me lembro com
precisão como começou a
briga. Estávamos todos
bastante bêbados. Lembro
sómente que Carl tinha
saltado a mesinha cheia de
copos ainda cheios e o pegou
pelo pescoço, arrastando-o
pra o banheiro enquanto
cuspia palavras e frases
desconexas. A esse ponto
decidi intervir.
- Bastardo, està pensando de
ser o gênio da situação, né?
Você tà na minha casa e não
te permito de roubar a minha
garota, claro? Que porra
pensa que è, seu cafageste,
pedaço de merda…
Tentei arrancar Miki das
suas garras, mas parecia que
o alcool tivesse lhe dado
uma força sobre humana.
- E tu, não o defenda e não
te meta porque senão vai
sobrar pra você… E não me
diga de ficar calmo, porra!
Estou na minha casa e faço o
que quiser.
Me jogou literalmente contra
a parede.
O pobre Miki não tinha
coragem de falar. Continuava
a olhar pra mim e pra ele
imperterrito. Com uma cara
de medo de fazer pena.
Segurando-o sempre pelo
pescoço, o obrigou a
sentar-se na privada.
- Fique aqui, fique aqui
pobre imbecil esse è o seu
lugar, azarado è o que você
è, se não tivesse me
conhecido, ninguém te
consideraria. - Saiu do
banheiro trocando as pernas
e se dirigiu ao seu quarto,
mostrando o dedo médio.
Micki sentado ainda na
privada, mudo e claramente
ressentido, com o olhar fixo
nos azuleijos da parede.
Visivelmente fazia um
esforço pra não cair no
choro. Não se voltou pra me
olhar nem mesmo quando me
sentei no bidé perto dele
pra tentar de alguma maneira
a recuperar a situação.
Justifiquei carl dizendo que
ele não prentendeva em
absoluto, dizer aquelas
coisas. O problema era que
quando se embebedava perdia
completamente o contrôle.
Falei por bem 15 minutos e
por todo aquele tempo o
garoto continuou a fixar a
parede, sem abrir a boca.
Tentei também de levantà-lo
pra lhe tirar daquela
postação mas não consegui.
Decidi não insistir e o
deixei no banheiro com a luz
acesa, achando que quando
passasse o choque, iria pra
sua cama.
No dia seguinte, acordei
muito tarde e, naturalmente,
com uma forte dor de cabeça.
Fui na cozinha procurar uma
aspirina e tomar um café. Me
dei conta que a luz do
banheiro estava ainda acesa.
Me lembrei de repente da
noite anterior e, suspirando,
fui apagà-la.
Pensei em uma alucinação
pós-porre.
Micki ainda estava ali,
Tinha dormido, ou melhor,
passado a noite ali. Na
mesma posição da noite
anterior. Mesmo olhar vazio,
fixava inerte a parede. Acho
que foi aí que senti, pela
primeira vez, um leve
arrepio na coluna. A esse
ponto estava claro que o
menino tinha um parafuso
fora do lugar.
Incomensurável. Não existe
outro adjetivo. Se saiu com
outra das suas, e dessa vez
tinha superado ele mesmo.
Parece de tê-lo ainda diante
dos meus olhos, xícara de
chá ao limão, conjuntinho
cor de vinho, pernas
cruzadas, enquanto dizia com
toda seriedade de
licantropia (imitaçao de
lobisomen) - uma doença
hereditada - acrescentou.
- Na familia existia outros
casos… o avô, o tio… e
talvez outros. Até agora não
teve problema. Havia
gerenciado o problema com
sabedoria. As pessoas
geralmente confundiam a
doença com a lenda do
lobisomen. Isso tinha lhe
causado alguns problemas no
passado, por isso não
gostava de falar. O bastardo
tinha todos os documentos. O
modo que contava bobagens…
deus era unico, ninguém
conseguia contar como ele.
Conhecendo, então, a
escrupulosidade maniacal de
Miki em se informar a
respeito de tudo, tinha
falado em maneira minunciosa
das provas científicas.
Citou um tal David Dolphin,
um cientista que tinha
classificado a licantropia
como uma grave forma de "porfiria”.
Trata-se de uma forma de
disfunção pela qual alguns
agentes químicos, ditos
porfirinas, mudam o oxigênio
no sangue. A mutação
produziria uma toxina capaz
de entre outras, deteriorar
a pele. A causa principal
seria imputada à falta de
uma substância chamada EME,
que era produzida pelo
fígado e è a responsável
pela coloração do sangue.
Explicou que as pessoas
afetadas por essa doença são
sujeitas a frequentes crises,
principalmente em
proximidade das noites de
lua cheia, durante as quais,
pode acontecer que alternem
momentos de lucidez e
momentos de falta de
controle. Em linhas gerais,
è uma doença hereditária,
mas jà aconteceu algumas
vezes de ser transmitida
pela saliva ou, entre
sujeitos particularmente
fracos, com um simples
arranhão.
Não éramos siguros que
tivéssimos caido nessa.
Ficou um interdito. Várias
vezes tinha aberto a boca
com nitida intenção de dizer
alguma coisa, mas fechava
imediatamente. Por alguns
dias, tentou até nos evitar,
mas eu pensei que fosse
porque tinhe achado que
tínhamos gozado com a cara
dele.
Um dia se apresenta um amigo
seu, um outro meio
genialoide que tinha uns
dois anos mais que ele e
estudava medicina. Esse tipo
tinha as chaves da sala da
faculdade considerada tabù.
Decidiu levar Miki pra fazer
um passeio naquela que os
outros estudantes chamavam
“sala das maravilhas”,
praticamente a sala onde
conservavam os frascos
cheios de formol. Os freaks,
as brincadeiras da natureza.
Fetos com anomalias
genéticas além de qualquer
imaginação. Voltou pra casa
pálido como um lençol,
contando de ter visto com
duas cabeças, com um olho só,
estilo cíclope, e até um com
escamas como peixes.
- Claro que a natureza è
mesmo estranha - nos disse
reflexivo, enquanto fritava
um ovo, procurando parecer o
mais calmo possível - Minha
avó me diz sempre que em
cada lenda existe um fundo
de verdade… quero dizer… as
sereias, os centauros, de
alguma parte… teriam tirado
essas idéias de alguma
parte!
Naturalmente, a esse ponto,
pensamos de levar a
brincadeira a um nível
superior.
O ferro, como se sabe, se
bate enquanto è quente.
Desde aquela noite da
declaração de Carl que
estávamos todos esperando a
primeira noite de lua cheia.
Naturalmente, todos os três
não dava a entender nada.
Todos os três escondiam nos
respectivos quartos o
calendário com as fases
lunares.
Carl não me tinha dito com
precisão o que tinha em
mente e eu esperava com
impaciência as suas ações.
Isso significava, ter de
improvisar. No passado
tínhamos feito isso muitas
vezes. Naquela noite
tínhamos comprado o jantar
em um restaurante. Frango
assado e batatinhas, o prato
das noites especiais. E’
inutil dizer que na mesa
reinava um silêncio absoluto.
A um certo ponto, Carl se
levanta de improviso, com
uma expressão de quem está
pra vomitar. Consegue eté
empalidecer. Me pediu se
poderia, por favor, levar a
janta no seu quarto e com
uma expressão de mártir
estampada no rosto,
acrescentou em voz baixa:
- Me perdoem, estou muito,
muito doente.
Tive de recorrer a todo o
meu self control pra não
explodir em risadas…
O corredor parecia mais
escuro do que nos outros
dias. Enquanto caminhava com
a bandeja na mão, podia
sentir o respiro forte de
Miki no meu pescoço. Lhe
tranquilizei dizedndo-lhe
que não era a primeira vez
que tinha de lhe assistir
durante uma das suas crises...
Tudo OK. Bastava que não lhe
irritasse. Algumas vezes
pude notar que ele fazia
umas estranhas vozes… mas
nada mais. Passei a bandeja
a Miki. Bati na porta.
Ouvimos um rugido tão
enraivecido que nos fez
saltar pra trás. Uma mão
arrancou rapidamente a
bandeja das mãos de Mcki que
tremia de forma
incontrolável. Mordi o
interior da bochecha pra
poder controlar a crise de
riso.
Pedi a Miki de não falar com
ninguém… sabe como são
racistas essas pessoas… e
poderia com certeza danejar
a reputação do meu amigo.
- Lógico, entendo, sei
quanto a ignorância possa
arruinar as pessoas, e
muitos poderiam até se
sentir realmente diferentes
e marginalizados…
- Nunca vialguém mudar de
cor assim tão rapidamente…
vi transformar-se velozmente
da mesma cor da parede. Tão
branco que por um momento
tive a impressão de ter
diante de mim dois olhos que
me fixavam suspensos com uma
malheta e um par de jeans.
Antes que pudesse abrir a
boca pra perguntar-lhe o que
lhe tinha acontecido, me dei
conta que tinha um leve
corte na mão direita.
- Meu Deus - murmurou - Meu
Deus, meu Deus, meu Deus… me
arranhou!!! Me arranhou!!!
Pronto. Àquele ponto,
qualquer pessoa que tem os
parafusos no lugar teria
decidido que a brincadeira è
boa até quando dura pouco.
Implorei a Carl pra dizer ao
pobrezinho que era tudo uma
brincadeira. Miki estava
fora de si. Zanzava pela
casa como um zumbì.
Respondia somente com
monossílabos e passava a
maior parte do seu tempo na
biblioteca.
Tenho dúvidas se conseguia
dormir, tinha sempre dois
círculos escuros em torno
aos olhos. Me sentia
terrivelmente culpado. Pela
primeira vez, durante os
últimos três anos, comecei a
nutrir um discreto
sentimento de desgosto por
aquele que considerava o meu
melhor amigo. A arrogância e
a maldade de Carl tinham
chegado a um ponto de
desgostar-me. Assim decidi
pegar ele pelos peitos.
Não gostou, pra dizer a
verdade, a até acho que
obteve um efeito contrário.
As reprovações por parte
daquele que provavelmente
considerava o seu “digno
compadre” não podia engolir.
Quando lhe disse que tinha
exagerado com Miki e que
tinha chegado a hora de
parar, me respondeu que
ainda não tinha terminada
nem tinha a minima intenção.
Lhe chamei de irresponsável.
Tínhamos assustado até a
morte o pobre Miki e
precisava acabar com isso.
Nòs fomos, definitivamente,
o seu primeiro contato com o
mundo “externo” e, por culpa
nossa, poderia terminar
pensando que o mundo fosse
realmente de doidos.
Carl começou a se alterar.
Disse que nòs estavamos
enloquecendo por causa
daquele miserável. Tinhamos
lhe dado muita importância
desde o início e era hora de
acabar. Não me lembro
exatamente como foi, mas a
um certo ponto acho que
disse alguma coisa que lhe
enraiveceu. Me encontrei por
terra enquanto Carl, a três
centímetros da minha cara,
me agarrava pelo pescoço.
Havia os olhos injetados de
sangue e uma expressão que
não me lembro de ter visto
nunca antes.
- Quem te disse que não è
verdade? Você jà me viu
durante as noites de lua
cheia? Você se lembra, AMIGO?
Nunca fez as contas?? AMIGO??…
- e Deus me perdoe se, por
um instante, nãao tive a
impressão de ver alguma
coisa mudar na sua cara… os
dentes ficarem mais agudos e
longos, os olhos… Alguma
coisa de estranho estava
acontecendo aos seus olhos.
Deveria ter sido somente a
expressão devida à raiva e
eu me deixer sugestionar. As
coisas estavam realmente
precipitando. Não tinha
vontade de brigar com
ninguém, mas era claro que,
se continuasse naquela casa,
provavelmente correria risco
de perder a cabeça. Deveria
ir-me embora.
Decidi de procurar outro
apartamento, em segredo.
Cada um tem o seu estilo. Eu
estava me eclipsando e fazia
de conta que as coisas
estavam bem. Assim, quando
minha mãe me contou que Miki
também tinha decidido de
encontrar outro lugar, dei
um sospiro de alivio. Não
queria deixá-lo sózinho
naquela casa com Carl.
A noite que teria mudado
tudo chegou algum tempo
depois.
Estava na cozinha lendo o
jornal, como fazia todas as
tardes, bebendo uma xícara
de café e dando de vez em
quando uma olhada por cima
dos pinheiros, fora da
janela.
Apareceu Carl, com uma
expressão perenemente
chocada, desde que tivemos
aquela “pequena” discussão.
Fez de conta que não me viu.
Miki tinha lhe seguido.
- Preciso lhe falar, Carl… -
disse com voz incrivelmente
firme.
Peguei então o jornal e os
cigarros e sai decidido a
descer na cidade pra comprar
alguma coisa pra o jantar e
algumas latas de cerveja.
Muitos anos atrás, quando
fazia ainda o primeiro ano
de ginásio, li “A Maquina do
Tempo” de Wells. Como
sempre, 99% dos livros lidos,
nao lembro de quase nada.
Mas ficou em minha mente,
porém, mesmo de maneira
confusa, um único episódio.
O protagonista – o viajante
da máquina do tempo –
terminou por entrar em uma
época não bem definida na
terra. O povo que vivia alì,
parecia ter perdido a
consciência de si e dos
outros. Caminhavam com o
olhar perdido no vazio pelas
ruas, anônimas, e cada um
parecia o clone do outro.
Pra acrescentar ao fato de
per si jà bastante
angustiante, aparecia de vez
em quando uma presença não
bem definida e tirava um de
debaixo da terra. A um certo
momento a tal indivíduo
começava a se animar e
expremir gritos estranhos e
desarticulados. Com
expressão de terror, se
sacudia e se soltava com
todas as forças, despertado,
improvisamente , pelo
instinto de sobrevivência.
Diante aos seus inúteis
esforços, os outros
continuavam impertérritos e
indiferentes pela sua
estrada até que aquela
presença tirava fora um
outro.
Naquela noite, enquanto
entrava em casa, não tinha
nenhum problema em
particular… sómente um bem
pequeno referente a Carl e
Miki. Miki tinha dito a Carl
sobre o ser transferimento?
E se disse, como teria
reagido?
O sol estava se pondo. O
caminho arborizado que
terminava bem de frenta em
minha casa, nunca foi muito
iluminado e era por isso que,
quando chegava perto de
casa, apressava os passos.
Quando cheguei perto e pude
ver a janela da cozinha,
logo, logo me dei conta que
tinha alguma coisa errada.
Bem no centro da janela se
via um grande buraco. Sim,
era verdade, tinham
arrombata, estava quebrada.
Me aproximei o mais rápido
possível e percebi o grande
buraco e os fragmentos do
vidro espalhados pelo chão.
Brilhavam como pequenos
cristais swaroski, tudo em
torno ao muro verde. Tive um
mau pressentimento, mas
procurei manter a calma.
Talvez alguém tentou
improvisar um partida voando.
Ou então, Miki,
desajeitadamente, deixou
cair alguma coisa. Uma
vozinha, porém, continuava a
martelar na minha cabeça me
dizendo que tinha acontecido
algo muito desagradável.Subi
as escadas de um fôlego só,
chamando meus amigos em alta
voz. Encontrei a porta
encostada e minhas mãos
começaram a tremer levemente
enquanto procurava a
maçaneta pra fechar às
minhas costas. Talvez os
dois tinham decidido
pregar-me uma peça. Devia
ser isso. Carl tinha
decidido fazer uma
brincadeira comigo, junto
com Miki pra me fazer pagar.
Atraversei o corredor em
ponta dos pés, continuando a
chamá-los com voz cada vez
mais febril. Repetia a mim
mesmo que Miki entraria a
qualquer momento. Talvez
tinha ido jogar o lixo fora,
por isso tinha deixado a
porta aberta. Fazia sempre
assim quando ia jogar o lixo
fora. E Carl, talvez deveria
estar tomando banho e não me
ouviu chegar. Os vidros
quebrados… algum dos dois
deixou cair acidentalmente
alguma coisa. Uma laranja
jogada fora de mal jeito, ou…
Na penumbra, alguma coisa
escura e familiar,
despontava por baixo da mesa.
Tremendo de medo, apalpei a
padere procurando o
interruptor da luz.
Me aproximei com cautela pra
entender de que coisa se
tratava. Eram dois pés, dois
pés agarrados às pernas de
alguém que se encontrava de
bruço debaixo da mesa.
Carl estava com os olhos
arregalados e respirava mal.
Instintivamente tentei puxar
a sua cabeça. Lhe perguntei
o que tinha acontecido. Me
dei conta de ter as mãos
pegajosas de sangue, Assim
que comecei a entender a
situação, vi que tinha um
grande corte no peito, a
cabeça parecia ter sido
amassada na altura da
têmpora esquerda e no chão,
em meio ao sangue, tinha
estranhos fragmentos
grumosos e escuros.
Fixava inerte o teto, os
olhos arregalados e
inexpressivos. O peito
levantava e abaixava em modo
quase imperceptivel. O rosto
era uma máscara de cêra e, a
julgar pelo sangue que
continuava a perder, entendi
que estava pra morrer.
Enquanto segurava o celular,
as palavras me saiam da boca
sem nem mesmo aperceber.
Acho de ter dito coisas do
tipo… um acidente, està
morrendo, corram… socorro.
Não consigo absolutamente a
lembrar-me as palavras
exatas. Fluivam da minha
boca sem comando, como
naqueles filmes policiais
idiotas que passam em
continuação na Tv. O que me
lembro bem era o que pensava
naquele momento. Pensava que,
na realidade, deveria ser um
horrível sonho, ou uma
brincadeira arquitetada bem
demais. A vida não è nada
disso. A universidade, os
exames, as férias, o
trabalho, as garotas.
Acordaris de um momento a
outro.
Depois das devidas análises
e as várias inspeções, a
versão oficial da policia
era a seguinte: os meus
amigos se encontravam na
cozinha, quando um animal,
provavelmente um grande
cão-lôbo vagabundo, entrou
em casa pela porta principal
encontrada aberta. Foi
atraido à cozinha pelo
cheiro da comida. Pegado de
sorpresa, Carl foi o
primeiro a ser agredido.
Miki conseguiu escapar. Esse
último deveria ter se
embocado nos pinheiros em
estado de choque. Nesse
ínterim, o lôbo pensou em
sair pela janela fechada.
Miki foi encontrado no
pinheiral. Estava ainda
desmaiado. Tinha as vestes
sujas de sangue e
completamente dilaceradas.
Quando voltou a si, afirmou
que a única coisa que se
lembrava era o fato de estar
na cozinha com Carl. Estavam
discutindo quando a um certo
ponto, booom, escuridão
total.
Acordou no pinheiral,
desorientado e com dor em
toda a parte. Isso foi o que
contou à policia. Mas tinha
alguma coisa de inquetante
no seu modo de falar, no seu
comportamento alarmado mas
incrivelmente sereno. Me
olhava até diretamente nos
olhos. Dava a sólida
impressão de ostentar uma
improvisa e ao mesmo tempo
misteriosa tomada de
consciência. Nos seus olhos
notava-se uma nova luz que
parecia dizer: “Eu sei, e
pra vocês sou somente digno
de pena”.
A última vez que lhe vi foi
quando nos mudamos do
apartamento. Enquanto saia
pela porta com as últimas
malas, apoiou uma mão nos
meus ombros e me sussurrou
ao ouvido:
- Me perdoe,… estou muito,
muito doente.
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